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RECONCILIAÇÃO

Julho 1, 2012

Aos poucos, ia-se reconciliando com o que a mágoa a fizera rejeitar, e passar a olhar de soslaio e de sobrolho franzido, tão agastada com essas coisas que não tinham culpa nenhuma, como com a consciência da sua própria puerilidade. Mas, aos poucos, ia-se reconciliando. Mais sopro a sopro do que gota a gota. Mais sorvo a sorvo de azuis e verdes, que curiosamente lhe devolviam, transfiguradas na retina, memórias de cheiros repentinos a fruta fresca e a pães-de -leite ainda mornos, em manhãs de Verão, do que passo a passo ao longo de uma vereda qualquer de pensamentos e lembranças pendurados no sol e balançando no vento. Começara por se reconciliar com as rolas, que tinham voltado a ser, simplesmente, rolas, voando e arrulhando as suas vidas naturais – e não mais os ecos daquela palavra que se forja a si própria apenas nos ouvidos de quem a sente, e que tornava os arrulhos em… “angústia… angústia… angústia…” Depois, tinham sido as gaivotas. E no cenário mais improvável – precisamente no que, de repente, deixara de ser o cenário de uma morte, para se tornar no quadro plausível de muitas curas, pintadas a branco e, mais uma vez, a azul, em jorros de água e de céu limpo. Da garganta, tinham-lhe jorrado, até, em risos livres como elas, nomes talvez ridículos, mas que as tinham tornado cúmplices, a ela e a duas das tais gaivotas: Pia Nona e Pompília, vá lá saber-se porquê! A seguir àquilo, respirara fundo, pelos olhos fechados mas pelos braços abertos e o cabelo solto, achando essa espécie de estapafúrdio transplante absolutamente natural e, para além do mais, divertido. Lembrou-se, no olfacto, e talvez mesmo no tacto, de uma frase de um certo livro de um certo autor Brasileiro: “Deixa ela ir com as arraias…” – E “ela” desdobrou-se em si mesma, em dor, e em outra que se fora… e todas mergulharam e montaram no voo subaquático das raias, rumo à quietude que prenuncia, em cada fim, um recomeço. E, quando deu por si, estava, já, na consciência da reconciliação. Aos poucos. Sim… agora percebia que, um dia, ainda havia de voltar a gostar do mar!

– © Alexandra Oliveira (OneLight* ®)
(Aguarela de Catherine G McElroy)

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