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“… e, à sua imagem, decorre.”

Outubro 25, 2010

Só o facto de o Homem ter criado Deus à sua própria imagem, e não o contrário, justifica:

• Que “Deus” seja apresentado tantas vezes como uma entidade dominadora, vingativa, castigadora, mesquinha, usurária, e regateadora de favores;
• Que “Deus”, embora assumido como “um só” por várias crenças, seja disputado entre elas como o “único realmente verdadeiro”… com diferentes nomes;
• Que “Deus” assuma um género, designadamente o masculino, e determine, tantas vezes, que este deve dominar o outro;
• Que, da mesma forma, “Deus” assuma uma espécie – a humana, claro – e determine o direito de domínio desta sobre todas as outras, bem como o direito ao usufruto indiscriminado e pleno de toda a “sua” Criação;
• Que, assim, “Deus” tenha preferências e estabeleça precedências em relação a algumas das “suas” criaturas sobre outras;
• Que a omnipotência atribuída a “Deus” signifique, apenas, que “Ele” é o único responsável por tudo o que de bom ou mau – especialmente, o que de mau – acontece às “suas” criaturas – particularmente as da espécie humana;
• Que a “sua” omnisciência se converta rapidamente em ignorância, quer no sentido de incompetência, quer no de indiferença, quando aqueles que lha atribuíram se consideram, de algum modo, lesados nos direitos que, como “seus filhos”, se arrogam;
• Que, pelas mesmas razões, de omnipresente, “Deus” passe, num abrir e fechar de olhos, a… ausente.

Também só esse facto justifica:

• Que o Homem projecte sobre si próprio o reflexo da imagem de “Ser Superior” que atribuiu a “Deus” e por isso cometa, constantemente, injustiças, crimes, e actos de violência contra os seus semelhantes;
• Que, como efeito paradoxal da projecção anterior, o Homem continue, por outro lado, a projectar o efeito da sua própria imagem diminuída sobre os seres de outras espécies – cometendo, constantemente, abusos, crimes, e actos de violência contra os animais e a Natureza.

E, finalmente… quem, senão o Homem, mataria “Deus” por amor de si próprio, “ressuscitando-se”, no entanto, “ao terceiro dia”, para assim se afirmar – o que só o Homem demonstra ter obsessão por ser – ETERNO?

(Com um “Deus” como este… quem, senão o Homem, precisaria… do “Diabo” – que também criou?)

*

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

(Imagem de Hieronymus Bosch)

5 comentários leave one →
  1. ue o seu nada começa a ser compreendido permalink
    Outubro 25, 2010 2:48 pm

    Sim; é claro .
    deus é o homem apenas elevadas ao infinito as suas virtudes e defeitos .
    E enquanto o homem vai crescendo deus vai crescendo também mas, como no homem cresce também a inteligência das coisas, deus vai-se apagando -porque o seu nada começa a ser compreendido . E aí deus, actualmente, é apenas uma grande sombra …que no entanto ainda nos ensombra.
    abraço
    Geraldes de Carvalho

  2. Jorge Goncalves permalink
    Outubro 25, 2010 4:05 pm

    Estas questoes, em algumas das quais ja tenho pensado, fizeram-me lembrar o Saramago e os seus “Evangelho segundo Jesus Cristo” e, mais recentemente, “Caim”.
    Penso que mereceriam ser desenvolvidas mas…com pontuacao!

  3. Alexandra Oliveira permalink*
    Outubro 25, 2010 4:52 pm

    Amigos, estas reflexões, que aqui exprimo de uma forma um pouco esquemática, não são senão simples percepções sentidas… ou reconhecidas, algures, num qualquer nível de consciência que não me preocupo, sequer, em procurar identificar ou localizar – mas “de onde veio”, também, o que, uma vez, escrevi, acerca de “um paradoxo tremendo, que é o da desconstrução do Universo à nossa medida, e o da construção desmedida do nosso próprio universo no Universo.” Talvez esta trilogia ou trindade “Deus/Diabo/Eu” não seja, afinal, mais do que isso – a desconstrução do Universo (o infinito, que a nossa mente humana não abarca, e logo, não consegue conceptualizar) à nossa medida, e a construção desmedida do nosso próprio universo (o que a nossa humana mente “humanamente” abarca, logo, é capaz de conceptualizar) no tal Universo (ou o infinito). Talvez, na nossa ainda limitadíssima “medida de grandeza” – até de nós próprios, ou principalmente de nós próprios – raramente vislumbremos o que há de desmedido em nós, e que é… o próprio Universo (o infinito, o omnipotente, omnipresente, e omnisciente) do qual somos tão parte integrante como todos os “pequenos nadas”… ou como tudo o que, na paradoxal “medida de nada” de nós próprios, apenas somos capazes de conceber… como = a “Deus”.
    Beijos para os dois.

  4. ue o seu nada começa a ser compreendido permalink
    Outubro 25, 2010 5:41 pm

    Na minha opinião tudo quanto nos ultrapassa não existe excepto como palavras..nossas .
    Evidentemente que existe um mundo exterior a nós mas na medida em que o compreendemos é nosso, somos nós . E só, enquanto o compreendemos, existe mesmo .
    E se compreendemos torto, é torto mesmo que existe enquanto a nossa compreensão o não endireita.

    E também com til -tis, tiles …sei lá – caro Jorge…

    abraços
    Geraldes de Carvalho

  5. Alexandra Oliveira permalink*
    Outubro 25, 2010 7:00 pm

    Que curioso, querido amigo Geraldes… posso pedir-lhe que leia isto? – https://alexandraonelight.wordpress.com/2008/10/31/ode-as-lesmas-do-mar/

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