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Fugas

Setembro 5, 2009

(Para o meu vizinho Chousa de Alcandra)

I

Vergam, as nogueiras. Como se a abundância se fizesse lascívia, e a lascívia deleite. Como se o deleite fosse quase, quase, insustentável, e não pudesse, senão, render-se a si mesmo. E se derramasse, então, num orgasmo, profuso, verde, e de cerne carnudo. Entre muitos sussurros que o silêncio do gozo, do contentamento perfeito, vai, pouco a pouco, possuindo e consumando.

Diz-se, por aqui, que, em tais anos, de muito, muito mais nozes que vozes, há, por contraste, muito menos vinho. Sim, desse que molha e ateia, de um gole, a palavra. Que, de repente, ou de outro gole, leveda, ferve, e se faz prolífica. Tanto, que a si mesma se extravasa. E se vai, então, parindo em cantos, que logo se decantam, na celebração de si mesmos, em danças. Olho as danças já pegadas ao ouro do verbo ainda contido na polpa que, virginalmente, ainda desconhece, de si, o sumo que há-de multiplicá-la, menos verbo e mais cantos, nas bocas. Vozes. E sorrio, ao pensar na sabedoria do contraste.

II

Não há ausências. Há, simplesmente, presenças. De tudo… e dos seus opostos. Como, por exemplo, esta presença do indizível. Que respira, pulsa nos lábios, e escorre, como mel de rosmaninho cujo perfume não se sente e apenas se sabe, feito por abelhas que não se vêem mas são, para o cerne da consciência de, agora, ser doce. Por muito que não haja, ou não se ouçam, palavras.

III

E a fuga torna-se antónimo. Inteligível nos dedos.

*

– © 2009 Alexandra Oliveira (OneLight*®)

4 comentários leave one →
  1. Setembro 6, 2009 8:45 pm

    Abraiado e obrigado pola magnífica composición semántica que me adicas, vizinha.
    E quixera ser noz na nogueira e uva na viña, para conquistar o padal coa mistura. Pero dis que se di que se hai abundancia noces escasea o viño e viceversa. Fágase, pois, a mistura axeitada para conquerir o equilibrio que nos permita disfrutar da sequedada doce da noz que fuxe (e fúga-se) cando chega a froita húmida da vid fermentada…

    (Ben sei que non cumplo a obriga cun beijo; máis permíteme deixarcho aquí como testemuña da débeda. Beijo galego, con sabor a albariño)

  2. Setembro 9, 2009 12:42 am

    e os dedos respiram
    e tocam
    e dizem adeus
    e dizem até breve

    e dizem que a noite precede a criança
    e que a criança precede o deus.

    beijinhos imensos
    jorge

    p.s.
    já tinha saudades daqui.

  3. Setembro 12, 2009 11:17 am

    Vaites!! A Alexandra rachando fronteiras alem Minho. Fortes abraços desde a beira de cá

  4. Jorge Manuel Gonçalves permalink
    Janeiro 9, 2010 4:31 pm

    Que posso dizer mais do que as palavras artísticas e amigas dos que me antecederam?

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