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XII – As coisas que são quando não estás a olhar

Junho 10, 2009

Talvez estejas a cansar o olhar à procura dessa felicidade que permanentemente se te escapa. Talvez estejas a fazer dos teus braços pilares de templos que se desmoronam perante essas súplicas que alteias cada vez mais. Talvez estejas sempre onde não estás, contando o tempo que falta para o tempo que ainda não é, poupando o hoje para amanhã, e morrendo de fome na abundância presente, enquanto alimentas pensamentos de escassez futura. Talvez a Páscoa seja um ovo que ainda há-de chocar mais um Natal por alturas do Outono, e a roupa-velha seja para se comer fria no Ano Novo, com restos do próximo Verão, fritos enquanto verdes. Talvez o amor se faça segundo essa receita que, segundo todos, nunca falha, e que sabe, sem falhar, à desilusão que todos, aliás, afiançam. Talvez… talvez não estejas a olhar para todas as coisas que são enquanto olhas para demasiado longe com demasiada atenção por tempo demais. E contudo, há momentos agudos de felicidade em dias de infelicidade crónica; e gestos de gentileza, minúsculos e aeriformes, que ascendem de um chão pejado do fedor de despeitos em decomposição. Sim, há fôlegos que naturalmente se elevam, e mãos que naturalmente se abrem, e olhos que naturalmente caem, como reflexos, sobre âmagos que naturalmente querem desdobrar-se e voar. Porque há asas que preferem adejar com a brevidade da memória que a luz retém das mariposas, do que permanecerem eternas borboletas imperiais possíveis, no casulo. E há tufos de trevo de três e de quatro folhas que se limitam, com simplicidade, a ser igualmente verdes, ao longo do caminho, para os pés nus de tudo menos da vontade de sentirem como é bom tocá-los. E há pés que, ao longo desse caminho, vão aprendendo, com as estações, que as folhas não restolhariam, deliciosamente, se as impressões, que vêm cedo e em verde, se não expressassem, mais tarde, em ocre. E há sonhos a serem sonhados, e há vidas a serem vividas, e poemas a serem escritos, e poetas a amarem, e amor a ser feito como um sonho que a vida escreve em prosa poética acerca da felicidade – essa coisa que está em todas as coisas que são quando não estás a olhar.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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7 comentários leave one →
  1. Geraldes de Carvalho permalink
    Junho 12, 2009 2:33 am

    Sim, sim. Tudo devia acontecer mas ele(a) não olha .
    saudades
    Geraldes de Carvalho

  2. Junho 12, 2009 2:25 pm

    Muitos parabéns pola mençao do livro. Aínda que algo tarde já há uma entrada no meu blog para com voçê!! Aguardo goste dela.

    O “Antítese” estará os vindeiros dias na sua morada.

    Beijos.

  3. Junho 13, 2009 8:21 pm

    Eu quixera ser sempre a crisálida no casulo, o feto no útero materno; para flotar na ingravidez da dulzura e pousarme na dulzura ingrávida…
    (Lerte sempre me provoca emocións e suscita imaxes. Gosto do que dis e disfruto do que reflicte a miña mente).

    Beijos ulláns

  4. Alexandra Oliveira permalink*
    Junho 14, 2009 9:20 am

    Amigo Geraldes, que bom vê-lo novamente por este meu/seu/nosso espaço… que, como eu disse há pouco à Maria João Oliveira, continua a respirar, porque tem vida(s) própria(s), mesmo quando a(s) minha(s) vida(s) respira(m) (e eu) por outros espaços! :0) Quanto a este texto, foi, ou é, resultado de uma reflexão… ou olhar… de uma perspectiva de certo modo Taoísta; quantas coisas vemos se olharmos para “aqui” e “agora”… e quantas se nos escapam quando insistimos em olhar, sempre, para… “logo”, “amanhã”, “acolá”, “depois”. Muito obrigada pela sua companhia, e um beijo.
    Alexandra

  5. Alexandra Oliveira permalink*
    Junho 14, 2009 9:31 am

    Manuel, muito e muito obrigada… e vou já, já, ao teu blogue! :0)
    Entretanto, a Antítese Nativa será muito bem-vinda; toda a vontade de a ler cá está, intacta… ou, aliás, acrescentada, formando um espaço parecido com um abraço, esperando acolhê-la!
    Um beijo,
    Alexandra

  6. Alexandra Oliveira permalink*
    Junho 14, 2009 9:49 am

    “para flotar na ingravidez da dulzura e pousarme na dulzura ingrávida…” – Ah, Vizinho… flutuo, eu, mal podendo crer que as minhas imagens suscitem imagens de tal beleza… e, no entanto, grata e maravilhada… porque, pelos vistos, o fazem. Eis, talvez, nisto, a maior magia da metamorfose… que se dá dentro do casulo das palavras e dos sentires; adoro ver as borboletas que saem… únicas… várias… multifacetadas.
    Beijos com muitas cores,
    Alexandra

  7. Geraldes de Carvalho permalink
    Junho 20, 2009 5:47 pm

    Volto para lhe agradecer a sua visita ao meu blog e para lhe dizer também que voltei a ler este seu texto tão pródigo em sentido(s)
    seu
    Geraldes de Carvalho

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