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De horas encontradas em trilogia desencontrada

Maio 15, 2009

(Para o Joseph)

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I – Caminhos na tarde

cherries
Abres, na tarde, um caminho de cerejas. Podem ser poemas, ou talvez apenas sonoridades quentes, viajando de um quadrante amadurecido há vários Maios, a nordeste de cores bravas semeadas no vento. Pode ser que apenas me apeteça pousar o que penso no teu ombro, e nesse reduto ir, então, longamente desatando, de ramagens densas de acepções, as vozes essenciais e doces que colho, uma a uma, no caminho sentido. Esse caminho aberto entre os teus lábios e os meus, onde a tarde bem pode volver-se em todas as cerejas provadas…

Pode ser agora, amor?

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II – Nocturnos deuses

TwinFlames
Instalo-me, intrinsecamente, no cair da noite. Despida, ela, de luas e de brisa, veste-me a mim, que estou nua, desse azul profundo e quieto, de certo modo frio, por remoto, mas apenas de passagem – pois logo desliza, com a calidez de um veludo sublime, lavrado em espirais que evocam chegadas de longe e plenos suspiros. Não vejo senão com um levíssimo roçagar de dedos sobre os lábios entreabertos, que deixam entrar o que as pálpebras pensadamente velam, e não é mais do que a textura voluptuosa do ar, pontilhado de minúsculos lampejos, talvez de fogueiras que adormecem algures, ou de astros que acordam ao alcance dos poros. Sinto-me deusa, na alcova da deusa, e ela, a noite, deixa-se penetrar da minha mesma espera. Lânguida e sem pressa, ela como eu, nesta obscuridade natural de fêmea, vestida apenas de estar pronta para acolher, nu de humanos veludos, ainda que sublimes, e chegado de longe, com suspiros plenos, um natural, nocturno deus.

(Amor… és tu?)

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III – De volta (acesa madrugada)

riomouro
Volto ao regato, nesta consciência de margens talvez mutáveis, mas plenas em refracções de tempo e cristais elementares. Sempre acendeste de madrugadas as sombras e a dança destas árvores, que tantas vezes procurei tocar em espirais nocturnas de lumes vagos, com os olhos em voo para lá da nascente e dedos em crença penetrando estrelas no adejar das folhas. Volto, pois, ao regato e à plenitude de ti, correndo-me na pele, mas com a profundidade concebível, apenas, para a alma do sangue nas veias do tempo. Sim, do tempo e desta consciência fluida e cristalina, entre margens elementares e refracções talvez mutáveis mas infinitas, da luz de muitos outros equinócios a nascente de almas e ao cair das sombras. Sempre te encontrei ao voltar aqui, onde brotamos alma, e depois sangue de uma só água, e de um só fogo acendendo madrugadas para além da pele, com os dedos em luz espantando sombras caídas do tempo – esse outro tempo que já secou.

Voltamos, meu Amor.

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– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados
(Fotografias © Joseph Sherman (OneLight*®) – Todos os direitos reservados)

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Outras “Janelas para (algures) dentro”

4 comentários leave one →
  1. niebro permalink
    Maio 15, 2009 3:59 pm

    Bien haias, Alexandra, por quanto scribes.
    Bien melhor que cereijas, pura magie.

    Amadeu Ferreira

  2. Alexandra Oliveira permalink*
    Maio 17, 2009 9:22 am

    e ser-se lida assim por quem escreve e vê “de l peitoril daqueilha música”… é, mais do que uma honra, puro sentido. bem-hajas tu, que lês como escreves do sentido “com os dedos em luz”, Amadeu.
    Alexandra

  3. Maio 18, 2009 1:24 pm

    voltamos por aquela luz bem presente
    por aquela escrita sempre pulsante
    pelo teu amor, pelas tuas palavras
    pelo deus que ascende(s) do regato

    as águas são o lume das luas da poesia.

    um grande beijinho
    jorge

  4. Maio 18, 2009 4:23 pm

    Na máis pura osadía de elexir entre os tres movementos tan ben artellados, e de non poder beber dos tres vasos, saciaríame co terceiro!
    (O rebumbio da auga da imaxe que acompanhas, axúdame a levar a minha mente ao estadío que describes).

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