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Uma resenha macia do que tenho feito no tempo que não passou…

Maio 13, 2009

(Para os meus amigos Jorge Vicente e Chousa de Alcandra)

lilianmaus

Não passa, o tempo. Paira, com cheiro de frutos invisíveis, como se amadurecesse ao longe. Desacompanho uivos, e passo relinchos como folhas lentas, na noite. Mingua-se-me nos ombros a lua, e toca-lhe a face oculta a minha face. Cúmplices. É bonito pensar nisso sem pensar e depois adormecer. Adormecer, sim, na hora sem horas do acordar dos pássaros e das colmeias. Uma hora sem cor, ou com todas as cores, tal como devem ter soado no primeiro dia da criação. Acorda-me o sonho de que esse dia é todos os dias, sim, tão real como um sol nascente. Escrevo latidos, e acompanho galopes, então, em páginas rápidas. E respondem-me todas as eloquências de silêncios meigos, olhos profundos, trinados e zumbidos alheios aos matizes, cada vez mais acesos, dos meus traços, forças subtis como plenitudes que, de repente, se encontram e por isso aquietam. Um resenha macia, agora também para vós, e já não só por dentro do segredo dessa memória que se fez minha e de todas as minhas faces e das éguas e das cadelas, como uma só. Como uma só, sob um tempo que não passa. Erguemo-nos, todas, até que o tocamos. E fundimo-nos no cheiro de manhã já madura e carnuda, e no entanto sempre verde e em botão, mesmo quando aberta. Cheiro que, esse sim, passa no tempo que paira. Reconhecemo-nos terra, bebemo-nos água, morremo-nos vida. É isto, o que tenho, o que temos feito. Apenas tudo isto. E ninhos e mel em intento. Como as cotovias e as abelhas que se juntam a mim, a todas nós. Como uma só. Sim, respirando o ar que paira em torno de tudo o que temos, o que tenho por fazer, como quem, afinal, inspira um prólogo para se expirar sem epílogo no tempo. O tempo, que não passou e se alargará na fase crescente e visível de todas as minhas faces, quando anoitecermos, sem forma, perto, e cúmplices, como uma. Uma e outra vez.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados
(Arte de Lilian Maus)

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6 comentários leave one →
  1. Maio 13, 2009 3:10 pm

    um poema da vida e da vida e da vida
    e de tudo o que nós temos cá dentro
    e cá dentro e cá dentro e cá dentro
    das palavras (mais que palavras)
    (talvez voz) (som) (amor)

    um grande abracinho
    jorge

  2. Maio 13, 2009 4:30 pm

    E diante dun texto tan cargadinho de sutilidades pretendes ti que poida pensar nas cereixas?. Por máis vermella que sexa a súa cor e por máis atraíntes que resulten para o padal; nada supera o poder da imaxinación cando está ben suxestionada.
    Lindas verbas as da Volátil autora…

    Escrevo latidos, e acompanho galopes, então, em páginas rápidas”
    Sublime!

    Beijos coma cereijas (por esféricos e colorados)
    —-

    E já deixei máis explicaçom para participar no Sorteio das Casas Rurais Galegas. Xusto debaixo do teu comment. Anímate a participar!. É un magnífico pretexto para cruzar a raia e vir á PortuGaliza!

  3. Alexandra Oliveira permalink*
    Maio 15, 2009 12:56 pm

    Jorge, querido amigo, talvez tudo isso… que é o “tudo” indizível, mas, certamente, sensível.
    Xi-coração enorme!

  4. Alexandra Oliveira permalink*
    Maio 15, 2009 1:03 pm

    Mas, meu vizinho Chousa, que queres… as cerejas são um fruto tão inspirador! E as subtilezas… pois não se inspiram elas, tantas vezes, na polpa dos frutos?
    (Entretanto, lá fui ler muito bem lidas as instruções no teu recanto… e estou a pensar participar mesmo no sorteio. Tem lá locais lindíssimos, e eu sou “bicho rural”, pelo que me sentiria bem em qualquer um deles!)
    Um xi-coração também para ti, desta vez com aroma de morangos, que também já estão madurinhos e doces!

  5. Outubro 25, 2009 11:10 pm

    Fiquei surpresa e feliz com a imagem de meu trabalho a alimentar tua poesia em prosa.
    Sobre o trecho inicial:
    “Não passa, o tempo. Paira, com cheiro de frutos invisíveis, como se amadurecesse ao longe”, lembrei-me imediatamente de Rilke, em Cartas a um jovem poeta.
    Esse trabalho, não por acaso “Tessituras do Tempo”, carrega tudo isso: a sensação de perder a dimensão do tempo ao desenhar, com pequenos gestos que lembram a caligrafia, quando meu pensamento e meu corpo estão juntos como nunca.
    Fico feliz em ver essas reverberações.
    Abraço,
    Lilian Maus

  6. Alexandra Oliveira permalink*
    Outubro 28, 2009 12:22 pm

    E eu, Lilian, sinto-me muito grata, não só porque gostou do que escrevi, como também, e principalmente, pelo facto de considerar que o que escrevi se enquadra com este seu maravilhoso trabalho. É sempre audacioso, combinar expressões de impressões literárias e artísticas… mas é uma audácia que raramente combato, porque dificilmente lhe resisto! Ainda bem que sente, nesta simbiose, as tais reverberações que eu própria, logo de início, senti. O seu trabalho é magnífico, parabéns! Um abraço,
    Alexandra

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