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Horas impressas a cores flexíveis

Abril 19, 2009

A manhã parecia ter rolado suavemente para longe, envolta em folhas de chuva, enquanto ela flutuava à tona de sonhos com múltiplas cores e texturas. O último, mesmo à borda do despertar, fora uma exótica sequência de pequenos armários chineses, em laca vermelha, cães de Fu em jade, carpetes de um dourado macio abafando passos e rumos nus, um longo corredor cheio de portas que se abriam de par em par ao toque de uma orquídea branca…
aimea17
… e, por fim, uma vasta extensão de campos verde-água, onde cavalos líquidos e transparentes caracolavam, em folguedos, por entre outros seres feitos de água. E ela era um deles, e una com eles, naquele meio encharcado e flexível, um sentido de estar em casa fluindo-lhe ao rés e por dentro da pele, cabelos e crinas ondulando superfícies e profundezas, os sopros uma mistura de borbulhantes segredos e revelações cintilantes que redemoinhavam, escuros, e logo irrompiam, límpidos, à medida que eles inspiravam e expiravam.

Depois, abrira os olhos, todas aquelas imagens, percepções e sentidos pendendo-lhe, ainda, das pestanas, como gotas policromas. E as mãos dela, como líquidos tributários do seu corpo ainda líquido, tinham fluído, lentamente, ao longo do leito, atravessando uma brevíssima barra de surpresa, antes de desaguarem num sorriso divertido, que logo se alargara num contentamento sereno. Isto, quando as pontas dos seus dedos, de repente sólidas mas ainda permeáveis, tinham convergido com a tépida realidade dos lençóis de macio algodão, e primeiro o braço, e depois o rosto dele.

A tarde parecera então ir rolando suavemente para perto, envolta e contudo descoberta em subtis filamentos de luz. Envolvendo-os e contudo descobrindo-os, a ele e a ela, ali; como se o tempo nada tivesse a ver com as horas, e tivesse tudo a ver com estar, simplesmente, e, simplesmente, sentir; o quarto, a casa, amor. E o dia, flexível, para ele, para ela, prestes a começar.

Passava das três, e eles ainda ali continuavam; saboreando café e o conforto dos pijamas, tudo em pequenos goles, e ruminando o deleite impudente daquela preguiça.

E ela não conseguia definir se a papaia e o esparguete comidos, cerca de duas horas, um longo e voluptuoso duche, e uma troca de roupa depois, tinham sabido a pequeno-almoço tardio, almoço atrasado, ou jantar adiantado.

Também, era irrelevante, a definição. Relevante, era o sabor, por muito indizível que fosse. Mas que ficaria impresso, em essência, nele e nela. Em cores flexíveis, tal como aquelas horas, rolando já, suavemente, para dentro de outra noite.

~

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

(Pintura de Aimea – em “Imagery by Aimea”)

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8 comentários leave one →
  1. Abril 20, 2009 1:46 pm

    e são estas pequenas partilhas, minha querida amiga, que nos fazem humanos e belos. e donos da Poesia da vida, que é a mais verdadeira.

    um grande beijinho
    jorge

  2. Abril 21, 2009 12:49 pm

    Que ben cosido está este retalinho; eu diría que incluso bordado polos remates.
    “…pequeno-almoço tardio, almoço atrasado, ou jantar adiantado”.
    É como xuntar a poesía coa música…

    Moita musicalidade hai nas tuas escritas, cara vecinha. E moito gusto de atoparlles o compás.

  3. Alexandra Oliveira permalink*
    Abril 22, 2009 11:30 am

    Jorge, querido amigo, o dia a dia pode ser a poesia que quisermos.
    grandes beijocas, e um bom dia da Terra!
    Alexandra

  4. Alexandra Oliveira permalink*
    Abril 22, 2009 11:32 am

    E tu, querido vizinho, és sempre um querido na expressão das tuas impressões. Também a ti desejo um feliz dia da Terra, com beijocas do lado de cá!
    Alexandra

  5. Maio 2, 2009 2:01 am

    PARA BENS ESPIRITUAIS

    sempre o espanto me visita
    quando paro a ler palavras tuas
    a quem dás esta propriedade
    de serem únicas unidas
    por tua arte
    a qual aqui em versos celebro

    Parabéns!

  6. Maio 2, 2009 3:04 pm

    PARA BENS ESPIRITUAIS

    sempre o espanto me visita
    quando paro a ler palavras tuas
    a quem dás esta propriedade
    de serem únicas unidas
    por tua arte
    a qual aqui, em versos, celebro!

    Parabéns!

  7. Janeiro 19, 2010 11:31 pm

    Muito bom, lindo.
    Há muito tempo que não lia um texto tão surpreendentemente bonito.
    Obrigado pelo gozo que tive ao lê-lo.

    Álvaro Ferreira

  8. Janeiro 25, 2010 6:04 pm

    Álvaro, muito obrigada pela sua visita a este meu “espaço em movimento”, e pelas suas palavras… em relação às minhas palavras! Volte sempre que quiser, terei o maior gosto em recebê-lo!
    Um abraço,
    Alexandra

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