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Plenitude(s) que não parece(m)

Abril 10, 2009

I

Há pequenos toques de uma desarmonia talvez harmónica; talvez aquele instante de casulo quase a deixar de o ser. A forma não persiste, não define o que a engendra. Passas por uma lagarta, furando o verde, escuro, da folha; e não reconheces a borboleta, clara, que passa por ti.

~

II

Já não faltava muito para que o chão se volvesse tecto; para que ela invertesse o crescimento da erva, e subvertesse a trajectória dos mananciais; para que se descobrisse de azul e o verde se lhe fizesse cobertura. Ressuscitaria, ao cair da noite sobre esse lado em que morre o dia – mas ergue-se, sol, daquele outro lado em que ela se confundiria com as raízes do que nasce; à terceira, à nona, ou a outra lua, plena.

~

III

Mas estava a divagar. Um defeito seu. Ou efeito antigo. Sim, de quando, ainda bichinho, à falta de refúgio, ou enquanto lho faziam – ainda que sem más intenções – campo aberto com matilha ou tertúlia de batedores, se acoitava, justamente, na liberdade de vaguear; por dentro de si, naquele espaço único, misto de floresta obscura e de clareira secreta ao meio dela. Ali, as vozes chegavam-lhe, mas tão difusas, que não a incomodavam. De facto, dava-se um paradoxo. Era ela que, dali, chegava às vozes, sem que elas se apercebessem. Incautas, ficavam, então, à mercê do seu desassombro, que, quase sortilégio, as transformava naquilo que quisesse. E podiam ser, indistintamente, rumores de pássaros invisíveis nas árvores, estalidos de ramos secos sob patas indefinidas, zunido de abelhas em tufos de urze. Ou uma aragem, apenas.

~

IV

Depois, brotou. Como se fosse antes. Um pé na luz, e a cabeça uma corola. De mel nascente, ainda na sombra.

~

V

Toda a água é livre, por princípio. Mesmo presa, evapora-se, por fim. É isto, em essência, a palavra.

~

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

Outras “(Geo)grafias Inerentes”

2 comentários leave one →
  1. Abril 13, 2009 12:05 pm

    é isto, em princípio (ou na origem), o que as tuas palavras revelam.

    um grande beijinho
    jorge

  2. Alexandra permalink*
    Abril 16, 2009 9:46 am

    e um grande beijinho também para ti, amigo, que tão bem compreendes (e vives) a essência das palavras.
    Alexandra

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