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Quadro que não foi

Abril 7, 2009

Há estros tão fundamentais como cores. Cismava nisso, enquanto encharcava as mãos em amarelos secos de sol abrupto, e as despejava aleatoriamente pela cara, pelos ombros, ciente do veio que, por entre os seios, se lhe ia crestando, cada vez mais laranja, até ao umbigo. Mais abaixo havia tela de sobra para que uma boca incendiasse de escarlate toda uma floresta, e uma pira de uivos negros como noites cremasse todos os ocasos até ao derradeiro ramo, bem mais acima, e de um verde elementar como um reflexo hermético que se consuma no seu oposto. Mas eram tantas as interrupções, tantos os hiatos de águas cavas e aniladas minando cantos e espaços ainda em branco de ar intacto, que a cisma se exauria, de repente; e as mãos erguiam-se e os ombros encolhiam-se, naquele azul total e único do estro que se depõe. A cor última foi o violeta irrevogável de um voo solto. Que lhe caiu aos pés, sem um rumor, como um conceito que se dissipa e extingue. Olhou para o chão e viu… tudo o que há, afinal, ao fim do espectro. Nada. E saiu do quadro que não foi, deixando a cor ausente aberta, atrás de si, como quem fecha o arco-íris.

~

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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