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O que sentem as paredes

Fevereiro 6, 2009

(Ao Georg Mateos – e ao seu poema “Paredes Negras”)

Sei o que sentem as paredes, quando se lhes tornam negras as pedras. E sei, porque já fui parede branca, lavada pela chuva e pelo vento, puros. Sei, porque me acenderam alvoradas e ocasos rubros, e me pratearam luas e estrelas. Sei, porque me tocaram pétalas de incontáveis Primaveras, e porque folhas incontáveis despejaram Outonos inteiros sobre mim, à borda do caminho. Sei, porque fui chão de passos e eco de paragens, e sei, porque fui marco de chegada e despedida. Sei, porque me fiz traslado e logo obra, acaso de um sonho em fervorosa subida; porque me abri em janelas amplas, e, a um tempo, se fecharam portas na minha amplitude. Sei, porque de uma cor, e outra, e outra ainda, me fui matizando – segundo a luz ou a sombra reflectindo dias, noites, soluços, risos, mimos, pancadas, medos, esperas, ódios e amor, e mel ou sangue, em mim. Sei, em cada uma das minhas pedras, talhadas, esculpidas, cinzeladas; mutação, em fragmentos reordenados, da inteireza branca, natural, que antes fui. Sei, porque ao fazer-me abrigo me ergui, talvez, também barreira; porque nem ser um nem a outra me fez inexpugnável, indestrutível. Sei, porque me queimou o tempo e me escureceram fumo e abandonos. Se não o sou ainda, eu sei, serei também ruína; não sei se de santuário, que alguma invocação erija, se apenas fim, em negras pedras, de algo que já ninguém sabe o que foi. E sinto, sim, sei que sinto, em cada pedra de mim, tudo o que sentes; tudo o que sei.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

Outras (Geo)grafias Inerentes”

2 comentários leave one →
  1. Fevereiro 11, 2009 9:42 am

    Formoso texto, coma sempre, Alexandra.

    Esta vindeira 2ª feira faran-me a entrega do livro, polo que procederei a enviar-vos um par de exemplares.

    Um abraço

  2. alexandraonelight permalink*
    Fevereiro 11, 2009 10:12 am

    Muito obrigada, Manuel! Cá aguardaremos, com grande entusiasmo, os exemplares da “Antítese Nativa”, que estamos ansiosos por ler!
    Um abraço de cá,
    Alexandra (e Joseph)

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