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A caminhada

Fevereiro 1, 2009

Não havia sombra, ali; sombra alguma que, para aliviar aquela provação, as paredes espalhassem, compassivamente; como se o sol se tivesse petrificado numa posição hirta de meio-dia, convertendo casas e frontarias de lojas numa fiada, rebarbativa e abrasadora, de mesmice, e àquele tempo numa interminável, suada, poeirenta hora de ponta; completa, com o fumo acre dos escapes e as buzinas estridentes de demasiados veículos de impaciência individual engarrafados ao longo de uma avenida colectiva demasiado estreita.

E ela encontrara-se perdida, ali, como o proverbial, pedestre forasteiro; impelida para diante pelo zumbido de multidões em modo de ferroada, como vespas enlouquecidas, espicaçadas por varas de stress, ao longo de passeios escaldantes, tortos, e cheios de buracos; apesar dos pés, que se lhe tornavam no único, verdadeiro âmago do ser; prestes a destilar, de bolhas de desesperada fadiga, o último, ardente extracto de alma, por entre as tiras, demasiado apertadas, dos sapatos.

E contudo, ela não era nenhuma forasteira. Tinha caminhado, tropeçado, conduzido, tocado a buzina, sido empurrada e levada ao longo de avenidas e passeios de outros tempos como aquele, no que podia ter parecido diferente, ou sentido como tal, dependendo da estação e do ângulo do sol, mas era, de facto, aquele mesmíssimo lugar.

Ela sabia, portanto, de outros tempos como aquele e daquele lugar como conhecia os próprios pés, do tornozelo ao calcanhar, e dedo por dedo. E ela sabia, oh, sim, sabia que tudo isto tinha o propósito, tal como os seus pés, de a fazer avançar; de a fazer continuar.

Porque ela sabia, oh, sim, sabia que tempos como aquele, naquele mesmo lugar, eram, apenas, passagens. E que os pés, enquanto âmago de ser, não eram feitos para destilar – mesmo quando pareciam prestes a fazê-lo – o último extracto da alma, ali.

Não; nem sequer existia semelhante coisa, “o último extracto da alma”; e o âmago do ser era feito para avançar. Para continuar.

E, portanto, ela avançou. Continuou. E, porque já sabia, não houve, propriamente, um sentido de surpresa. Mas houve, oh, sim, houve um inegável, inquestionável sentido de maravilha, à medida que cada novo passo adiante foi diluindo o tráfego e as multidões, a impaciência e o stress, e desapertando mais uma tira, e libertando-lhe o âmago de constrições, até seguir descalço; ou seja, nu, e sarado, bolha a bolha, ao longo do passeio gradualmente refrescado, como as avenidas, pela sombra benevolente de um movimento tão natural como invisível; o da terra, e logo, o das cidades, e das baixas, e das casas, e das frontarias de lojas, fiada após fiada de paredes aparentemente imóveis.

Sob o sol, amaciado, e ajustando naturalmente o ângulo ao movimento natural de tudo o que pode parecer petrificado; mas, ela sabia, oh, sim, e continuava a aprender, não o está; nem o é.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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