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Escrito por não escrito

Janeiro 22, 2009

Hoje teria que escrever deste lugar de não ser boa nem má, de não ser doce nem amarga; deste lugar de me deixar chover, para que me não vejas sem ser através desta cortina que me despeja de todas as visões; que me enxuga, como se espremesse nuvens densamente escuras de um silêncio que me entoa cavamente. Sim, como uma sirene, abrindo e seguindo rumos surdos através de nevoeiros mudos. Hoje teria que escrever de escarpas que me desceram realidades pelas costas, e de alcantis que me arvoraram, no topo, como estandarte de muitos sonhos; logo, a escrita seria numa curva nem ascendente nem descendente, nem dorida nem aliviada, de me ausentar de mim em actos que lerias como actos de presença; e de me evolar como o derradeiro suspiro do que, contudo, jamais cairá. Sim, hoje teria que escrever de quantos equívocos mirraram, como uvas passas, paradigmas de vinho sagrado, por entre as comissuras de me ler numa língua que os lábios modulam mas não conhecem; mas provavelmente interpretarias tudo isso como mastigado, de sementes já cuspidas, e engolido, de gosto já rejeitado como uma fé que se renega. Assim, o que escrevo, hoje, não é o que teria que escrever; nem de onde teria que o fazer. O que escrevo são linhas de leres o que vou safando; do fim de onde teria que escrever hoje, até agora; que ainda não comecei.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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