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Escrita de embalar

Janeiro 7, 2009

Há dias ásperos que me apetece escrever maciamente. Dias frios, a embrulhar em ternura quente, com a complacência de um colo e a cadência de um embalo; com cheiro a leite de tomar com bolachas de baunilha, abertas, uma a uma, para que o gosto seja o da inocência e do desplante de lamber o creme, o doce, apenas. Dias crus, de levar a lume brando, com cantigas, maçãs, canela e paciência, para que cozam, se resolvam, lentamente. Dias crespos, a serenar como quem passa, com vagar, mãos balsâmicas por cabelos; a aquietar, até que se façam noite, e adormeçam, lisos, tão suaves como sonhos embebidos em verbena. Dias adustos, foscos, como sobrolhos franzidos; a desanuviar, com sol de riso, e, ruga a ruga – beijo a beijo. Dias, afinal, como quem cresceu, envelheceu, no tempo, antes do tempo; como ensejos que já foram, e contudo permanecem, feitos perdas; dias agrestes como o fim dos dias. Dias que escrevo como se o fizesse do princípio; como se fossem berços, ou quartos de brinquedos, ou jardins; como se eu fosse a mãe e eles, e eu, crianças. Como se, com o zelo e com o dom de quem consola, nos erguesse, aos dias e a mim; nos sacudisse, do âmago, como de joelhos arranhados, a dor e as areias; e, com a firmeza de quem já caiu e se ergueu, também, por si, vezes sem conta em outros tantos dias, os fechasse num abraço; num epílogo que lhes abra, e a mim, como um prefácio, escrita num sussurro, uma certeza: “Pronto, já passou; está tudo bem.”

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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3 comentários leave one →
  1. Janeiro 8, 2009 11:26 am

    e os dias em que roubávamos com colherinhas o que restava da massa do pão-de-ló, antes de cozer.

    e os dias em que dançamos, em que dormimos até tarde e pomos cantos gregorianos para adormecer na voz dos anjos. e energizamos o quarto com essa voz, esse cante divino.

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Janeiro 10, 2009 10:58 am

    sim, querido amigo; podemos (re)escrever ou ler ou, em suma, viver os dias de muitas maneiras, muitas delas com o poder real de os metamorfosear… e a nós próprios, neles. às vezes, junto-lhes, aos dias, quadradinhos de queijo com marmelada e grinaldas de malmequeres, a outros Mozart, e a outros, ainda, correrias com os cães, ou “diálogos” com os cavalos. :0) e assim se fazem dias bons de viver!
    grandes beijinhos,
    Alexandra

  3. Janeiro 12, 2009 11:37 am

    “diálogos com os cavalos”…

    nem as pessoas sabem as afinidades e as conversas que temos com os animais. e eles percebem tudo, mesmo que seja com um jeito que o homem ainda não percebe!

    um beijinho cheio de ternura
    jorge

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