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Auto-retrato de casa com arquitecto nu

Dezembro 29, 2008

Não. Não atinava com a casa, por mais que sulcasse ruas, becos, arrabaldes, e o papel, já dorido no estirador, de analogismos insistidos. Talvez porque a mão se lhe perdia, como de outras vezes, na convulsão de arquitecturas reflectidas. O telhado, por exemplo. Por mais que o erguesse, caía, como um sudoeste, agudo e quase negro, sobre um fundo de desassossego como um mar cor de ardósia. E as paredes, se bem que içadas como velas, acabavam sempre por chover, como pedraço, de cúmulos como medos e nimbos como fugas. Como nunca as desconstruiria, fora dos traços dele, nem a maior borrasca. A porta, essa, passava, então, como uma boca, à velocidade escarlate de muitos segredos mordidos à escala. E ia fechar-se, como um cerne na aspereza de uma casca, a um canto. Um canto entre cotovelo de praia, com algas secas como riscos de velhos esboços, conchas, e outros vagos borrões arrastados por uma qualquer maré em baixa de compasso, e ângulo de sótão, projectado para frutos secos que se guardam para não comer, com muitas outras desusadas tralhas. Não. Não atinava com o desenho das janelas, que se lhe faziam vãos escancarados para a penumbra na qual embrenhava o rosto, como num dédalo, até à angústia. A angústia da visão clara dos transeuntes, insidiosa, devassando-lhe a sombra, de fora para dentro. Apertava então as pálpebras, e o sentido, até à alucinação de não haver, na estrutura, qualquer fresta. E não, não entendia como, de repente, o encontravam, despido e ao relento, no âmago do enredo em si mesmo desmontado, pedra a pedra. Porque não, não atinava com a casa. Talvez porque a mão se lhe perdia na ilusão de se abrigar na arquitectura imaginada de outras casas. Como quem pinta um auto-retrato nu, sulcado de feridas, e insiste em cobri-lo de cura, em demãos sobre demãos de pele alheia.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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4 comentários leave one →
  1. jose gil permalink
    Dezembro 29, 2008 11:42 am

    Excelente…cito sem deixar de dizer que és a melhor poeta das Listas que frequento

    Bravo
    Cito
    “A porta, essa, passava, então, como uma boca, à velocidade escarlate de muitos segredos”

    beijo bravo

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 29, 2008 5:24 pm

    poeta, deixas-me sem jeito. mas, por outro lado, muito grata. ser lida e apreciada por poetas extraordinários, como tu és, é um privilégio.
    um beijo,
    Alexandra

  3. Janeiro 2, 2009 11:14 am

    e, para mim, também é um privilégio ler-te, amiga.

    a tua poesia cura, como as tuas mãos. e as demãos de pele que se entrelaçam no poema.

    um beijinho de bom ano
    jorge

  4. alexandraonelight permalink*
    Janeiro 4, 2009 10:57 am

    amigo, comoveram-me profundamente as tuas palavras, a tua perspectiva sobre o que escrevo. talvez a cura de quem lê venha da cura gradual e intrínseca que a si mesma se vai escrevendo em mim. não sei… mas o que quer que seja, vai continuar a escrever-se(me).
    um grande beijinho, e que o novo ano seja cheio de luz e de renovo também para ti!
    Alexandra

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