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Esta dança

Dezembro 27, 2008

Estes nossos olhos, amor, misturam tons de convite no ar, à espera que os braços cinjam o esboço da resposta. E ela chega, amor, como uma dança; por traços desta volúpia, um pouco na cadência arrastada de um tango, mas, por esta fome, apaixonada como um poema, sem ter perdido uma só pincelada rubra e cálida no caminho das palavras.

Entro, amor, e tu comigo, nesta dança, como polpa de cerejas que se trinca e simultaneamente se cria, ao descrever-se-nos nas bocas juntas.

Sorrimos ao sabor permutado desta ideia de que deslizamos, amor, num pavimento estranhamente vivo e mutável; entre pomar escrito numa abundância que se consuma em dádivas sumarentas, e tela no limite de um impressionismo que não se subordina às leis da perspectiva, e se busca, já, nas formas fundamentais; nessas, em cuja força, brusca e minuciosa, agarra, e nós, amor, a evasiva essência do fogo; este fogo frutado, amor, que dançamos e nos lambe como nunca antes o pintou, e ele queimou, ninguém.

Comigo voltas, nesta dança e cultivo, amor, poeta, artista, das ladeiras que dilatamos, semeado o eixo elementar de novas ondas circulares; e todo o ar entra, largamente, pelo anel aberto do pomar aceso, do poema.

Dançamos então, amor, o cerne luminoso que, no pavimento vivo, mutável, se pinta subitamente cúbico, como uma caixa de cores; cores a encherem este branco puro, amor, de sermos silhuetas entregues, simplesmente, aos sabores, às sílabas encantadas desta dança.

Encantadas, as sílabas, diluídas no beijo encantado e maduro, encantados os passos, apesar das fadigas; aliás, deixadas para trás, imersas no nevoeiro dessas ilhas invisíveis que erguemos no pavimento.

E de onde saímos para entrarmos um no outro, e nos consumarmos, amor, completamente, na intimidade de outra mutação secreta; também madura, nos olhos, nos braços, em todos os gomos da polpa; e no entanto, com essa curiosidade intensa e fresca de um mundo que começa.

Nesta dança, amor; de cada vez.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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