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Canto único

Dezembro 20, 2008

(ou conto sem nome)

cantounico1

Não importa o nome; era poeta, e escrevia da pele, talvez de dentro do sal, talvez do mar.

Da alma, dizia o vento, a rosa tocada de marfim no longe de uma ilha; dizia o sol tocada a lua deitada noutra ilha; dizia reinos onde crescem árvores como templos; calava a prece, chorava o riso, lavava o pranto depois do canto longamente andado no areal.

Era poeta, o nome não importa; e, por isso, as mãos corriam-lhe na margem, apagando estrofes murmuradas à boca da manhã.

Era uma esteira, e, o poema, o barco já partido, a onda inteira, a musa e o balanço no bojo do tinteiro, a travessia, a tempestade, o bramido das velas que se rasgam, à vista da arribada.

O nome não importa; o do poema, era amor feito à proa levantada, era cabelo solto, e era o leme, o rumo de gemidos, sereias, neptuninos segredos de não serem mais que homens os que fazem divinas as vertentes das falésias, e riem de monstros e de lendas, quando é de seios quentes, de longos fados, o cabo que dobram ao decifrar da esperança no fim do medo, do lado côncavo da descoberta.

Era poeta, e ela a página, todas as linhas percorridas sem sextante ou astrolábio nos lábios abertos às cartas que se bebem nas estrelas.

O nome não importa; a epopeia, o livro que há-de ser ou não, apenas ela; seda, especiaria, marítima vereda de alcançar a terra; gaivota, o voo amplo além do céu, do norte do mais alto mastro de ainda mais poemas; que seguem, sem nome, mais sonhos que acordam no cesto da gávea dos sonhos que nunca dormem.

Era poeta, ele, e navegante; em cada porto um desses sonhos, um desses nomes que a distância inventa, quando escrita do desejo de estar perto e ser de lá, ser dela, cravar-lhe o marco na memória sem estrema, e aos frutos verdes de vermelha, doce, polpa adivinhada e quase sangue, já, nos dentes e nas veias, chamar seus.

O nome não importa; o que ficou, quando ele largou amarras, foi um eco, um eco apenas, a um canto do verso mais curto do universo onde começa, se quisermos, de novo, bem mais que todo o mar.

Sem nome, o eco era o da alma, talvez agora apenas alga; do que ela foi, na praia, sem nome, que foi tudo, ouvida só nos búzios, a voz do corpo dela (nem silhueta, já, de pátria ou mãe, mulher amante e amada, nos grãos do tempo):

“Adeus, poeta, adeus! Eu fico por aqui!”

Arte digital e texto – © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

© – Copyright (favor ler)

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2 comentários leave one →
  1. Dezembro 22, 2008 11:45 am

    mas que canto fantástico o teu, querida amiga!!!

    um grande beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 26, 2008 3:54 pm

    muito obrigada, querido amigo! lembras-te de um poema colectivo de Entrecampos cujo tema era Portugal, e que não chegou a ser completado? este “canto único” foi escrito nessa altura… e depois, “derivou” para a gaveta por uns tempos, até que “desembarcou” aqui. fico muito contente por teres gostado!
    beijocas,
    Alexandra

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