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A insustentável visão da sabedoria

Dezembro 19, 2008

(para lá da ponta do nariz)

Há dias em que a vida se me pousa na ponta do nariz, como uns óculos. Uns óculos de sabedoria, daquela que vem com a idade, essa mesma idade que nem é biológica nem temporal, mas apenas proporcional ao que já vimos, e que nos traz aos olhos o cansaço de termos visto não tudo, que nunca vemos tudo por muito que vejamos, mas as mesmíssimas coisas, num sem fim de repetições, todas elas pelejando por primeiros lugares e pela absoluta novidade no nosso campo de visão. Poderia, talvez, oferecer, partilhando-a, a sabedoria dos óculos. Oferecer o insustentável alívio que vem, exactamente, de já saber que tal peleja acaba sempre sem vencedores nem vencidos, sem heróis nem mártires, por já ter visto como, apesar disso, eternamente recomeçam outras tantas pelejas, tão confrangedoramente parecidas entre si. Mas os óculos turvam-se, por acção de tantos sopros concentrados e aplicados em me reforçar outra visão – esta, cada vez mais nua, e logo, cada vez mais agudizada pela consciência de que cada pessoa tem que ver e experimentar, logo, viver por si própria. Ou, pelo contrário, persistir nos cenários sustentáveis da sua voluntária cegueira. Ver ou não ver, para além da ponta do nariz, eis a questão – eis a escolha que, conforme no-lo ensina a idade que não é biológica nem temporal, mas apenas proporcional ao que vamos aprendendo, ninguém, senão os nossos próprios olhos, com óculos ou sem eles, pode fazer por nós. Curva-me os ombros, a vida, nesses dias; esses mesmos ombros que encolho numa infinidade de “que se lixem”, e que embrulho num xaile de desprendimento, antes de me desprender completamente do cenário, onde o acotovelamento das imagens e dos contextos que se descabelam pela absoluta novidade continua. Então, com todo esse vagar que só a idade traz – a idade que nem é temporal nem biológica, mas apenas proporcional ao que já percorremos – tiro os óculos, e vou, deliberadamente, de um qualquer penhasco deserto, não atirar-me, não – ora, ora, ora…as fantasias dramáticas que as pessoas pensam, e logo acreditam que… são! – mas ver o mar. Esse, sim; por mais vezes que o veja, sempre uma novidade absoluta.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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2 comentários leave one →
  1. Dezembro 19, 2008 11:17 am

    para lá da ponta do mar, um texto muito bonito, amiga.

    e o penhasco é sempre bom para ver o mar.

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 19, 2008 11:25 am

    o penhasco e o mar são sempre visões de fim e de princípio. sábias, as ondas e as pedras…
    beijinho para ti, querido amigo!
    Alexandra

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