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Desembarque

Dezembro 17, 2008

Desembarca-me, um certo poema, às portas de uma alvorada sem mar que se divise ao fundo do emaranhado de ruas e fios de chuva, cujo início parece manar de uma colina onde nuvens e passos se afadigam, numa pressa calma de quem já chegou ou está prestes a partir, à volta de um poço largo de desejos. Estou ao meio, estrito, desta descida que sobe nos meus olhos, e tão molhada como a terra que me reveste os pés, mas tão nua, ela, como eu, de tudo o que não seja este dom de nos sentirmos uma, com a água e com o ar. Lá em baixo, onde talvez desagúe o fogo de muitas preces, dizem-me os ouvidos que há janelas altas, enquadradas em ecos de aves, cujas canções passaram em bandos para lá de sonhos ainda tépidos, e ainda abraçados. Bem lhes reconheço a voz, a todos, e daqui, desta limpidez acromática, envio-lhes as cores do meu sorriso cúmplice, sabendo que o hão-de armar como um arco-íris em grinalda e que, sob ele hão-de sair a semear em dança fértil, ditosos fados. Descanso, no sabor de alguns momentos oferecidos por um outro viandante, que os tira do bornal embrulhados em papel recortado, mas que me chegam à sede e à fome dos lábios em palavras inteiras, descobertas. Na mão do viandante toco a suave mas firme percepção de que não devo desperdiçar, nem, todavia, acumular esta dádiva com travos, formas e cadências tão diversas. Devemos, ele e eu, prosseguir, e partilhar os rumos encontrados tal como eles aqui nos uniram a pele e o sopro em reminiscências, impressões e esperanças ao meio, estrito, desta subida que nos desce nas mãos. Despedimo-nos, sem nos chamarmos, mas reconhecendo-nos pelo nome, que não nos define nem contém. E retomamos a descida que sobe para onde a subida principia a descer. Às portas da alvorada, o tal poema espera-me, para que eu embarque de novo. E agora diviso, inegavelmente, não apenas mar, mas uma infinidade de sol nascente ao cimo das ruas desatadas e das linhas hasteadas que se expandem no vento e no horizonte. Largamos amarras, o tal poema e eu, e connosco, viajam todas aquelas visões, aquelas reverberações, aquele gosto de cambiantes múltiplos e contudo indivisíveis, aquela plenitude que era fundo de poço e apogeu de súplica. Reveste-nos a nudez quente da paixão que se faz às vagas. E a noite que nos enquadra é, simplesmente, o cruzar das portas para outras alvoradas onde o tempo não nos espera, porque o levamos e nos leva no bojo e nas velas: Ao poema, aos fados semeados, aos momentos amadurecidos em palavras tocadas para que se repartam ao outro e muitos outros viandantes, e a mim. Para trás, nada fica senão o que é já outra vez advento, adiante de nós.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

2 comentários leave one →
  1. Dezembro 17, 2008 11:09 am

    a alva do viandante, do caminheiro ou, simplesmente, do poeta

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 19, 2008 10:03 am

    e não serão elas e eles uma, um só, querido amigo?
    grande beijinho para ti,
    Alexandra

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