Skip to content

Noite, chuva, dons, e uma fatia de sol

Dezembro 12, 2008

Ser de noite, noite de chuva, ainda por cima, e estarem ali a comer uma fatia de sol, era obra. Uma obra dessas que só uma qualquer semidivindade, a quem uma qualquer divindade inteira tivesse concedido dons inconcebíveis, parecia concebível poder realizar. Mas não, ali, com ele, com ela, tudo era, simplesmente, divinamente possível, mesmo aquilo – ou sobretudo aquilo – que parecia, complexamente, humanamente impossível.

 

Eram de sol, as cores, o brilho. Como o sol, quentes, abertos. O queijo, alaranjado, cortado grosso, à maneira de um quase poente. Cortado e quase posto, realmente, à borda dum mundo quase plano, embora redondo, à maneira de um prato. E o doce, alaranjado, sobrando, em fios, do frasco aberto. Como raios doces sobrando de um sol aberto mas quase a esvaziar-se, à maneira de uma abóbora que se esvazia às colheradas. De abóbora, o doce, sol esvaziado às colheradas, à maneira de raios que sobram de estar quase posto e cortado grosso, à maneira de um queijo alaranjado, à borda de um prato à maneira de um mundo quase plano, embora redondo.

 

Divina, a fatia de sol comida apesar de ser de noite, noite de chuva, ainda por cima. Mais divina ainda, essa possibilidade de tudo, ali, com ela, com ele, sobretudo o complexamente, humanamente impossível, acontecer, simplesmente. Tão simplesmente, que se podia comer. Em fatias, às colheradas, só com o olhar, enchendo muito a boca ou pondo à borda de quase redondamente saborear, com a ponta dos dedos. À maneira dos dons inconcebíveis. Que era, ali, sempre, maneira e obra concebível dele, dela. Um dom.

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

Outras “Janelas para (algures) dentro”

2 comentários leave one →
  1. niebro permalink
    Dezembro 13, 2008 3:18 am

    hai sfergantes, cun pessonas i cun sítios, que nien to la fame de l mundo mos dá gana de comer, para que dúren siempre: stranhamente, solo l sfergante que fazemos nuosso, comendo-lo, comendo-mos, bota frol d’eiternidade.
    Amadeu Ferreira

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 13, 2008 5:21 pm

    Sim, há instantes assim, que (se) nos fazem ambivalentes, paradoxais; como chegadas que não queremos e queremos que sejam, porque são fim, mas também princípio de caminho… ou tempo, nosso. Sim, talvez comendo o tempo, no instante, o façamos eterno… talvez a eternidade seja o agora. Bien haias pula beijita al miu canto i pula anspiraçon que siempre ancuntro ne l tou. Un abraço, i anté siempre, Amadeu.
    Alexandra

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: