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Da pedra aos Atlantes

Dezembro 11, 2008

No fundo deste vale, a água corre, às vezes salta por cima da pedra; cavalgam-se, tornam-se uma só entidade que canta, ondula, ejacula, engole, e depois sussurra, mansa ou nem tanto, uma carícia longa, fluida, os cabelos da água varrendo o torso da pedra, ainda quentes, ambos; pequenas bolhas de beijo irisando de pequenos sóis molhados a solidez flexível, viva; por cima da nudez plena só o vento, breve, com uma ou outra folha.

 

A pele da água arrepia a pedra, morna a gema. Nunca se sabe quando a torrente galgará de novo o cabeço de pedra, cadenciando essa lucidez bravia que arrasta um cheiro forte de alecrim e fruta amadurecendo pelo fundo deste vale.

 

As casas ruíram há muito, mas que importam casas quando há palácios no ar todo e no mar perto, e os deuses se retiram para que entrem os que os fizeram, e farão de novo, sempre, enquanto houver fogo irrompendo de ondas e ondas rompendo, com os bicos salgados, o ar? Enquanto houver línguas divinas de âmagos de sol enrolando noites e luas em dunas, perfeitos templos, e golfinhos entoarem os segredos que os deuses nunca souberam mas os cavalos e os touros sim, nas margens acesas do estuário?

 

Eu sei, e tu sabes, em bocas juntas, o que os deuses apenas sonham nos nossos sonhos, e que os golfinhos, os touros, os cavalos, entendem e substanciam, ao fundo deste vale, onde se tornam e nos tornamos água que cavalga a pedra do palácio, perto e dentro; os mistérios que ardem, imortais, sagrados, aqui, na essência deste ar.

 

O corpo todo beija, corrente como água, a pedra ardente; o teu.

 

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados


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2 comentários leave one →
  1. Dezembro 12, 2008 11:01 am

    o nosso palácio. todos os palácios. as mansões bem acesas da alma.

    um grande beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 12, 2008 11:14 am

    sim, os palácios divinamente humanos que construímos quando os outros, todos os outros, ruem. os cavalos, os golfinhos, os touros (e os cães, os gatos, os furões, os falcões…) entendem bem tudo isto, bem como a pedra, a água, o vento, e o sol que se apaga para acender a lua.
    outro beijinho,
    Alexandra

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