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XIX – Sem querer

Dezembro 6, 2008

Se queres, realmente queres chamar-me o que quer que seja, tens, realmente tens, que me chamar não pelo nome que queres ou qualquer outro, que realmente não me define e muito menos contém, mas por mim, tal como realmente sou para cá e para lá do que tu queres que eu seja. E, realmente, tu não tens querer, no que eu realmente sou porque quero. Houve um que quis que o epitáfio a gravar na lápide fosse que não foi o que quis ser e não quis ser o que foi; pois eu, desde o prefácio ao epílogo e à volta à folha em branco, escrevo-me como quero e quero-me como me escrevo, sem remate de cinzel sobre pedra, por mais que a pedra, as pedras, o sejam para cá de remates e lápides, ou sequer entalhe de faca em tronco de árvore, por mais que a árvore, as árvores, cresçam e se alarguem para lá do tempo das facas e dos entalhes. Entende, se queres; ou, se não queres, deduz, do que queres, o que quiseres. E então chama-me o que quiseres, mas não queiras que te responda; não me chamam, entendes? – Chamo-me; convoco-me, trago-me, escolho-me, junto-me, disperso-me, acabo-me e recomeço-me, faço-me, desfaço-me e refaço-me, invoco-me, risco-me, rabisco-me, revejo-me, sangro-me, transfundo-me de mim a mim, revelo-me, segredo-me, sopro-me e respiro-me. E, ao longo de todo este processo longo, que se encurta em espaços tão curtos entre mim e mim que em mim se fazem o que me faço sem hiato no processo, vou sendo o que quero ser e vou querendo ser o que sou. Se queres, realmente, chamar-me o que quer que seja, tens, realmente tens, que me chamar não pelo nome que queres ou qualquer outro, que realmente não me define e muito menos contém; porque, por mim, tal como realmente sou para lá e para cá de pedras, e árvores, e folhas, e do que tu queres que eu seja, realmente não tenho nome… sem querer.

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

 

Nota: Mais uma vez salto, deliberadamente, a ordem numérica dos Exercícios, para dedicar este “Sem querer” ao amigo e poeta Manuel Rodrigues, por ocasião do lançamento do seu livro “Antítese Nativa”… e para lhe confirmar o quanto entendo a frustação de quem se sente catalogado, classificado, comparado… rotulado, quando escreve, e quanto ao que escreve. Entretanto, e mais uma vez, parabéns, poeta!

 


Outros “Exercícios (In)divisíveis por mim própria”

2 comentários leave one →
  1. Dezembro 9, 2008 12:22 pm

    o teu nome. gravado na alma. que é a tua. e que não é o teu nome. mas sim os dedos que tocam na eternidade. os teus.

    jorge vicente

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 10, 2008 10:56 am

    tu entendes, verdadeiramente, amigo. muito, muito obrigada!
    beijoca,
    Alexandra

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