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Carta a um ausente

Novembro 22, 2008

Escrevo-te ao correr do silêncio, num dia de palavras leves, leves como penas molhadas num azul muito claro e facilmente vadiado para longe. Neste papel faz frio, um frio branco que se encolhe nas próprias margens, mas que procura as linhas de não tiritar sob um cabeçalho de indefinido intento, do qual, em palhas soltas, se dispersam cogitações longínquas, sim, do tempo em que eram tecto consolidado, justamente, para abrigar. Havia aqui uma fogueira, e lembro-me de estrofes que se apressavam, de mãos estendidas, para as faúlhas, buscando bem mais avidamente a queimadela do que o senso doméstico e confortável de estarem ao calor. Porque esse – lembras-te? – era um calor que amodorrava a veia, aquela veia que se queria fluida e fresca, além de inesgotável, para saciar todas as sedes de vozes pulsantes, sem as extinguir. Era inenarrável, esse sentido que fazia o sentido todo em sentido nenhum, mas eu modelaria ainda malgas fundamente côncavas para todas estas memórias transbordantes que quero, agora, coalhar-te nos lábios, quando me leres alto, como quem atarda colheradas de sangue e mel, porque já lhes conhece o gosto de adocicado sal e sabe que pode ser amargo, amargo de recitar esgares e gritos inteiros até à última gota. Mas, olha, nem sei porque te estampo tal imagética à porta deste nada ter, realmente para te dizer, de onde te envio tudo, absolutamente tudo o que quero que ouças como quem ouve, ouve bem o silêncio, aberto, ou, melhor ainda, escancarado e de umbral bem varrido. E é a rir sem rima que me suspendo assim, estendendo-te em mote uma passadeira bem vermelha, de boas-vindas, sempre. Cá estarei seja qual for o clima que, de ti, me sopre dentro. E até te farei uma vénia, quando chegares. Dá recados meus ao fim da página, poema. Que a próxima seja plena e cheire ainda à tinta de quem acabou, apenas, de partir para mais.

– © 2008 Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados
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2 comentários leave one →
  1. José Gil permalink
    Dezembro 6, 2008 3:52 pm

    a poesia tem metamorfoses como o corpo do poeta e a sua inspiração.
    Sei quer um poeta bravo está para lá destas palavras excelentes

  2. alexandraonelight permalink*
    Dezembro 6, 2008 5:55 pm

    José Gil,
    há sempre um poeta no poema, e um poema no poeta, ausente ou não.
    agradeço-te a presença e as palavras.
    um beijo,
    Alexandra

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