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VII – De perto ao longe

Novembro 9, 2008

“Screbir ye un eisercício de soledade, mesmo quando tenemos cumpanha. Assi i todo, esta siempre ajuda a calcer, que ye muita la friage que se cola als dies.” – Amadeu J. F. em “Cumo quien bai de camino”

Não sei se voltas, não sei se passas, nem eu mesma sei se estou. Há aqui, aí, um decalque de ermas amplitudes, cada qual olhando-se na outra de través. Mas eu, e tu, olhamo-nos de caras, como de focinhos, na longitude desta fuligem que é tão real, debaixo das tuas unhas, como na linha conceptual que dela, escura, com cheiro a lar apagado, traço na caiada conjunção desta parede com a alvura de infinitas possibilidades. Basta uma soleira; e, para lá dela, um acto; um acto medido por um passo, um passo para cá de mim. Porque hás-de entrar, e eu, aí, aqui, fora de nós, mas tão rentes como limiares de manhã e despertares de bichos, ou da fome deles. E sairemos, aqui, aí, como do calor de currais adjacentes para o frio de pastos, que é como quem diz de largueza a doer na pele e a arrepiar o pelo, de tão manifesta. Depois voltaremos, como quem sopra frieiras nos nós dos dedos, ou traz, às costas, a leveza, em molhos, que há-de reacender o lar, porque se recolheu por entre a caruma caída do que jamais caduca, e logo, cheira a vivo e arejado. Passaremos o sentido de estarmos como caldo em malgas, e saberemos, de olhos fechados, que somos, tu e eu, como talvez o saibam as castanhas que racham sob as brasas, ou as brasas sobre as lajes, ou as lajes ao rés da terra, ou a terra batida que é chão cá dentro, como, lavrada ou em pousio, é, lá fora, solo. O decalque será, então, de retirados toques; sim, fora da vista dos que não sabemos se voltam ou passam por onde nós estamos; quietos e plenos, como ruminantes que se saciaram de liberdade e agora, como silvestres criaturas que nenhum redil jamais sujeita, se enroscam, um no outro, e na calidez da lura. Até amanhã.

 

– © 2008 Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

4 comentários leave one →
  1. José Gil permalink
    Novembro 9, 2008 2:22 pm

    cito

    como sempre Brava

    “Basta uma soleira; e, para lá dela, um acto”

    uma prosa poética única

  2. Novembro 10, 2008 2:33 am

    Muito bom ler um exercício continuado duma escrita onde o significado nunca é esquecido, sendo a arte p_arte integrante! Abraços, para a poetisa e para o companheiro e poeta que sempre a inspira.
    Vosso amigo, Francisco

  3. alexandraonelight permalink*
    Novembro 12, 2008 1:25 pm

    @ José Gil,
    a que mais pode, quem escreve, aspirar, senão a não escrever como ninguém, e a que ninguém escreva como (ele, ela) escreve?
    um beijo grato, bravo poeta.

  4. alexandraonelight permalink*
    Novembro 12, 2008 1:31 pm

    @ Francisco,
    um prazer e uma honra, a tua visita a este(s) espaço(s) de contiuada(s) escrita(s). Espaço(s) que muito gostaria(m) de enlaçar (não é esta palavra bem mais bonita do que “ligar”?) o(s) teu(s). Posso (podemos)?
    Acho que vou ousar fazê-lo, mesmo antes que digas que sim! :0)
    Um abraço dos dois que são Uma Luz,
    Alexandra e Joseph

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