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De pão, amor, e percepções II

Novembro 9, 2008

A escolha não deliberada mas incontornável de um lugar de conforto com sabidas praganas.

 

Um lugar de tremenda lucidez, por contraste. O contraste entre as feições sustentadas, no fantasiado obscurecimento de si próprias, pela torre albarrã da distância, e as que, desse mesmo baluarte, saltam, descuidadas e descobertas, à vista e para o terreiro de todas as adjacências e – também por contraste – de todos os confrontos.

 

O conforto de um estado de ser como quem peneira farinha, lhe acrescenta água, sal e levedura, e depois amassa, deixa descansar para que dobre de volume, para então moldar nas porções precisas, com o tamanho e as formas exactas, o que logo é para cozer e distribuir por quem espera.

 

O conforto de deixar o ser estar com a nobreza e a humildade da tarefa que é imprescindível mas na qual só se pensa quando não é executada, ou a porção, o tamanho e a forma não correspondem ao que esperam os que esperam.

 

O conforto, recheado de praganas subliminares, de deixar o ser estar à margem da contenda, do romance, da saga, das bravuras, das cobardias, dos ferimentos, dos suspiros, das rezas e das imprecações, mas de tudo, tudo isso ir sentindo na alma; essa que não se vê, e logo, é como se não existisse, tal como o ar, que é aquilo que mata quando falta, mas também não se vê, ou a fome, que mata quando o que falta é, precisamente, o que se espera deste estado de ser invisível – a produção do sustento visível para os que esperam.

 

Esses, que hoje são guerreiros e trovadores na mesma causa heróica ou histérica que deles fará criminosos ou ridículos ou apenas mortos, amanhã.

 

Quanto a ela, será amanhã o que é hoje, nesse lugar não deliberada mas incontornavelmente escolhido onde o conforto é a coragem de sentir, no trigo e no centeio, também, as tais praganas.

 

Morta ou viva, alguém que faz, ou fazia, das lágrimas limpas às mãos enfarinhadas, apenas pão – porque ao sangue vermelhíssimo com que escrevia textos à margem, enquanto levedavam as percepções, ninguém o ouve, como jamais ouviu, gotejar dos rasgões.

 

Afinal – mas isso são segredos que só sabe quem, por acaso, também descenda de moleiros ou tenha aprendido a debulhar – seja o trigo branco ou vermelho, de ambos a farinha que se faz é sempre silenciosa, e vem de espigas semelhantes, densas, glabras e brancas.

 

Com praganas negras na base.

 

 

 

– © 2008 Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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