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Entre mim e o que escrevo

Novembro 8, 2008

Há, entre mim e o que escrevo, o nexo palpável de pés nus com musgo, terra e pedras, de partida para um mesmo irrestrito advento; e são permutáveis, no vento, os rodopios do que escrevo e os meus cabelos. E há, em nós, esta íntima penetrabilidade; como se os segredos do que escrevo fossem o meu covil, e nessa concavidade morna, escura, e húmida, como um refúgio entre fetos, se acoitasse a sua (e minha) confissão. Acasalamos, portanto, eu e o que escrevo; com toda a ausência de castidade presente na pureza absoluta de ser dos seres naturais. E, à uma chão e geração, parimo-nos – em criaturas que respiram, nos transbordam, e debandam; furtivas, umas, afoitas, outras, bravias, todas. Podem provar-nos, ao que escrevo e a mim, mas nem sempre alcançar-nos – e então, jurar-nos verdes; mas, deixados no calor da mesma espera, medraremos, far-nos-emos maduros, ao toque e ao palato; até que o peso e a doçura de estarmos prontos se faça, em nós, final de gravidez e lei da gravidade; e por um e pela outra caiamos, simplesmente, consumados, com um baque como um suspiro, sobre a língua de uma mesma fome; cujos dentes, por certo, nos triturarão até que, de mim e do que escrevo, escorra, como sangue, ou como água, o mesmo sumo – e, no que escrevo e em mim, se mitigue a mesma sede. E… sim, e haverá dias em que nos tornaremos ecléticos, eu e o que escrevo; como demasiados quereres, sentires, e viveres, que os dedos, por demais inquietos, dispersassem, pelos cantos, pelas fímbrias, pelas latitudes dos espaços e ensejos. Não nos concretizaremos, então, nesses dias, eu e o que escrevo, senão em borrões isolados, ou mesmo, nada mais que laivos soltos, ténues, e distantes entre si, de certas cores ilegíveis; mas tácteis, sim – se tu, que nos lês, levares à boca os meus inquietos dedos; e em cada um sugares, uma por uma, as gradações peculiares da sápida inerência (desta volúpia, que é cópula, concepção, produto, apanha, repasto, remate, refluxo e andamento) que há entre mim e o que escrevo.

 

– © 2008 Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

2 comentários leave one →
  1. Novembro 10, 2008 11:43 am

    entre mim e aquilo que escrevo, uma possessão da pele e das nuvens. o céu e a terra; o pai e a mãe; a criança e o adulto antigo.

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Novembro 12, 2008 1:37 pm

    se calhar, amigo, entre nós e o que escrevemos há aquele nexo definido pelo Ary dos Santos: “original é o poeta que a si mesmo se origina”… e eu “altero”, com a devida vénia, para “original é quem escreve o que, escrito, a ambos (os/as), entre si, origina”. faz sentido?
    beijinhos,
    Alexandra

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