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AR

Novembro 3, 2008

(Armário Repleto)

 

 

 

Tinha a mania de guardar tudo, tudo, as coisas mais incríveis. Tudo, num armário de duas portas mas com doze pares de gavetas, doze, ao fundo do quarto – roupeiro. Esse, de onde saía todos os dias o que todos os dias se ia guardando para não guardar, mas, precisamente, para ir saindo, como as toalhas lavadas de fresco, os lençóis de linho ou os de algodão estampado para fazer as camas de fresco e de lavado, os panos da cozinha e de limpar, depois de lavados, os pratos onde se comera comida fresca, as colchas frescas para o tempo quente, e os cobertores quentes para o tempo fresco.

 

Era nesse quarto – roupeiro, de guardar saídas, que ela guardava, num armário ao fundo, o que nunca sairia de trás das duas portas e de dentro dos doze pares de gavetas, doze. Todas a abarrotar, aos pares, por trás das duas portas, de tudo, tudo, das coisas mais incríveis, e, por não serem para sair, fechadas á chave, com duas voltas, duas, dos dedos secos de tanto guardar e tanto fechar.

 

Foi num desses dias de saídas do que se guarda num quarto – roupeiro, um dia como todos os dias, todos, que o corpo todo se lhe secou, a ela. Não tinha, não tinha conseguido guardar, fechar lá dentro, nem com mil voltas, mil, o suco. E por isso, foram encontrá-la seca, como uma roupa vazia e não lavada nem vestida de fresco há muito, tesa e fria, embora o tempo fosse quente, ao fundo do quarto – roupeiro.

 

Nos dedos secos, fechava a chave com que tudo, tudo, as coisas mais incríveis, fechava com duas voltas, duas, no armário do que guardava para não sair nunca. Uma fitinha seca, de um vermelho também já seco, como sangue que perdeu a frescura, pendia da chave, fazendo lembrar um coágulo. Um coágulo, fechando alguma ferida aberta.

 

Pois agora, era preciso abrir o armário. Quem sabe, reabrir alguma ferida. Ou muitas feridas, muito sangue saído mas coagulado, ali, por trás das duas portas, dentro dos doze pares de gavetas. Mas isso já não iria doer àquele corpo seco, como uma roupa vazia de alma, que alguém levou, teso e frio, para fora do quarto – roupeiro. Tal como se leva aquilo que é para sair, lavado de fresco, levaram-na a ela, do quarto – roupeiro, como se fosse, afinal, roupa fresca e lavada, até de sangue, mesmo seco.

 

E a chave rodou na fechadura do armário ao fundo, rodou em dedos quentes de certa mão cheia de frescura. Duas vezes, duas, rodou no sentido de abrir o que duas voltas, duas, tinham rodado no sentido de fechar. E as duas portas, duas, não abriram – escancararam-se, expondo os doze pares de gavetas, doze do lado direito, doze do lado esquerdo. Como os dois lados de uma grande ferida que não abre, antes escancara um peito, e expõe, com o sangue fresco que sai, quente, doze pares de costelas, doze do lado direito, doze do lado esquerdo.

 

As coisas mais incríveis, guardadas, saindo agora das gavetas, doze do lado direito, doze do lado esquerdo, uma por uma, puxadas para fora para ver o que está dentro, como costelas que se afastam para ver os órgãos que resguardam.

 

As coisas mais incríveis. E todas anotadas, como numa aula de anatomia. Nesta gaveta, por exemplo, uma fotografia. De um desconhecido. Envergando uma farda. Com uma anotação: “À R. O ar que respiro.” Ao lado, na outra gaveta – par, uma condecoração, dentro de uma caixa. Não com uma, mas com duas notas, duas. Uma, com ar seco: “Distinção concedida a título póstumo a A. por…” O resto, tinha um risco por cima, mas por baixo, havia a outra nota, seca de ar: “O A. deixou de respirar. Eu também. R.”

 

Sim, o ar. O ar fechado, a duas voltas de desespero, duas, no armário – peito. Em tentativa, esperançada, talvez, e afinal, de guardar o que se lhe fora, para sempre. Quando ele, o A., de Amor como de Alma como de Ar, saíra. Deixando-a, à R., afinal, como o armário repleto. Repleta, apenas, de vazio. 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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