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Há dragões, para lá destas linhas

Novembro 1, 2008

Há dragões, para lá destas linhas que desato na mansidão deliberada da cor ausente da manhã. Colhi a noite, embora não saibas, porque dormias, e pronunciei maduros sortilégios à boca dos teus sonhos, sem querer que acordasses. Faço-me guardiã de estrelas e canto para o silêncio, sentada na margem de tinta à deriva por rios de lembradas texturas, onde raízes de universos fundos brotam, mais adiante, o mar, enquanto a chegada amontoa esperas na memória da areia. Não vês como passo afagos ao correr da pele de uma dor que a alma das luzes quer manter, como a ti, submersa, apenas, em amor; e é bom, ou apenas certo, que continues embalado no desvelo da minha vigília. Quero que a maré semeie luares felizes nesta praia onde te ofereço a escrita de todos os meus beijos. Quero que leias o céu transparente desvelado nas pálpebras fechadas a todas as brumas. Quero, abertas, as tuas certezas no meu regaço; e por isso, cubro-te da escolha macia dos tons nascentes em todos os horizontes inenarráveis. Há dragões, para lá destas linhas; mas aqui, meu amor, há a paz de um poema que escreveste quando o tempo, cansado de lutar, se deitara na mansidão deliberada de uma manhã apodrecida, para que ambos deixassem a cor morrer. Cantaste à boca de sonhos perdidos estas estrelas que agora guardo, e no meu seio acordaste a voz das ondas para além dos rios secos e da tinta coagulada nos cardos das margens. As esperas foram, então, chegadas em voo, e a praia falou de afagos, em gritos de cura. Aqui, não há senão a alma desatada de um universo fundo, que há-de brotar, das raízes deste amor submerso, todos os sortilégios tangíveis; sempre que o teu sopro colher, madura, ao despertares, a luz, em vigília cálida, que semeaste no meu sopro; nessas outras manhãs de bruma adensando noites e cores ausentes, em que a dor jamais dormia, e os dragões reinavam; para cá destas linhas.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

3 comentários leave one →
  1. José Gil permalink
    Novembro 1, 2008 4:29 pm

    cito excelente,bravo
    “Quero que a maré semeie luares felizes nesta praia onde te ofereço a escrita de todos os meus beijos. Quero que leias o céu transparente desvelado nas pálpebras fechadas a todas as brumas. Quero, abertas, as tuas certezas no meu regaço; e por isso, cubro-te da escolha ”
    José Gil

  2. José Gil permalink
    Novembro 2, 2008 9:27 am

    e continuo o meu comentário dos dragões vivos do texto.
    linguas em linguas de fogo, o corpo erguido
    entre os cavalos e a vinha, as letras de fogo do dragão real

  3. alexandraonelight permalink*
    Novembro 2, 2008 12:15 pm

    José Gil,
    Agora, sim; aos dragões o que é dos dragões, e não… dos “pões”! :0)
    Um bom Domingo para ti,
    Alexandra

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