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Ode às lesmas do mar

Outubro 31, 2008

Porquê? Por nada. Ou talvez por toda a relevância do muito em que não se pensa como relevante. Ou do muito em que não se pensa quando se pensa.

 

Porquê? Porque, segundo Descartes, pensamos, logo existimos. Logo, talvez descartemos a existência de tudo aquilo em que não pensamos.

 

Porquê? Por tudo. Ou talvez pela nenhuma relevância dos pequenos, minúsculos, ínfimos nadas que, no pensamento, se revolvem e volvem em tudo o que é relevante. E que nos lançam num paradoxo tremendo, que é o da desconstrução do Universo à nossa medida, e o da construção desmedida do nosso próprio universo no Universo.

 

Porquê? Porque o puto irrequieto nos rebenta, em cima do fato de banho novo, a garrafa do sumo, e o estrondo, os estragos colossais, abafam, obliteram, até à surdez, até à cegueira, o estrondo, os estragos, de mais um colossal glaciar que rebenta e despenha mais um pedaço colossal do Árctico no mar.

 

Porquê? Porque, entretanto, o mar é tão desmedidamente grande, que nos cega à desmedida grandeza dos estragos causados por mais essa pequena garrafa de plástico, rebentada, que nele lançamos. E porque o sumo, pegajoso, misturado com o suor, pegajoso, na pele, nos faz pensar apenas no mar perto. À distância, apenas, de mais uns minutos de fila e emissões de dióxido de carbono para a atmosfera quente daquele dia desmedidamente quente, tão desmedidamente distante, no nosso pensamento, do Árctico que degela… como se não existisse.

 

Porquê? Porque… porque… porque há, no mar desmedido que desconstruímos, como o Universo, à nossa medida, coisas tão pequenas, logo tão distantes da medida de grandeza em que nos construímos, nós próprios, no Universo, como as lesmas do mar. Em que não pensamos, e logo, é como se não existissem, porque só existem as pequenas coisas que o nosso pensamento volve em coisas tão desmedidamente grandes como as coisas desmedidamente grandes que só existem na medida pequena em que nelas pensamos.

 

Porquê? Por nada. Ou talvez, por toda a relevância que as lesmas do mar tomaram, no meu universo, porque, sei lá porquê, pensei nelas. Ou talvez porque elas existem no Universo desmedido para além da medida do meu universo. Ou talvez… porque, na minha limitadíssima medida de grandeza, no meu tremendo paradoxo cartesiano, humano, eu tenha vislumbrado, de repente, algo desmedido.

 

O quê? A global, universal, desmedida relevância de tudo no nada aparente, e do nada invisível no tudo. Como a relevância da garrafa de plástico “de nada” no mar desmedidamente grande. Ou de uns “minutos de nada” de dióxido de carbono na atmosfera desmedidamente quente. Ou da atmosfera desmedidamente quente na distância do Árctico que degela e se despenha, em pedaços, no mar. No mar de um Universo desmedido onde as lesmas, tão pequenas como pequenos nadas, são, certamente, tão desmedidamente relevantes como, por exemplo, o Árctico. Que, para além da “medida de nada” do meu universo, é tão desmedidamente relevante em tudo, logo, no Universo… como, por exemplo, eu.

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

3 comentários leave one →
  1. Novembro 3, 2008 2:23 pm

    uma das chamadas verdades (deveras) inconveniente.

    um grande abraço para ti e para o universo todo
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Novembro 5, 2008 4:27 pm

    e uma daquelas responsabilidades a que se pode pensar, convenientemente, fugir… mas não pode; felizmente, porque responsabilidade é, também, poder. O poder de agir, e de (escolher) mudar.
    – Cada vez com mais “audácia da esperança”! :0)

  3. ue o seu nada começa a ser compreendido permalink
    Outubro 25, 2010 7:16 pm

    Sim, sim, só é efectivamente grande o que muito nos incomoda -em sentido lato que abrange o que muito nos espanta-
    seu
    Geraldes de Carvalho

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