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(Não) são rosas, senhor(es)

Outubro 31, 2008

Uma vez por outra, na vida, caía-lhe daquilo no regaço. Ciumeiras mal dirigidas, frustrações mal digeridas, outras tantas inconveniências com o mesmo cheiro de vómito e a mesma esverdengada coloração de sopa feita de ingredientes indigestos e mal cozidos.

 

Fel que subia ou falo que descia, ou um por causa do outro acontecendo a espaços equidistantes de um qualquer umbigo para cima ou para baixo, algures, e ela ali, sem ter nada a ver com pratos pesados ou humores leves como arrotos. Engoliam-se uns e pronto, davam-se os outros e já estava. Ou então atiravam-se estes com estrondo e prendiam-se aqueles com o esgar próprio do que custa tanto fazer que até dói.

 

E ela ali, sem ter nada que ver com a louça, ou o conteúdo, ou fermentações. Mas uma vez por outra, caía-lhe daquilo no regaço. Já matutara se, por acaso, teria cara de penico, feições de bueiro, feitio de saco plástico, bojo de latrina. E não, não encontrava, nem mirando-se desapiedadamente ao espelho, nem esquadrinhando-se ainda mais implacavelmente por dentro, desse lado também com cara mas com um reverso que nenhum espelho retorna, qualquer traço de tais parecenças. Porque seria, então, que, na vida, lhe caía daquilo no regaço, uma vez por outra?

 

Vagarosamente, porque naquele dia não estava para pressas, tirou a saia alastrada da última golfada daquilo. A mexerufada azeda de letras mastigadas, guinchos acrescentados em fio, e várias hortaliças indistintas e amolecidas, já secara, entretanto, no pano. Não, não eram rosas, senhores. Mas, por baixo da saia, descartada como quem descarta, exactamente, o que é descartável, ou seja, nem reutilizável nem bom para o que quer que seja senão para o lixo ou para o esquecimento, havia um regaço. Um regaço cálido e macio. Um regaço de dar, como de receber. Mas não daquilo. Um regaço, afinal, como todo o corpo. O corpo dela; que, descartado o resto da roupa, como do desassossego, como da náusea, lhe devolveu, limpa, no espelho, a dádiva pura da sua serenidade, e da sua nudez; integralmente cor-de-rosa.

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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