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Essência de água

Outubro 30, 2008

(como sempre fui)

Não me encontrei, nesses dias líquidos, suspensa na minha essência de água.

 

Calei-me na canção de uma fonte, ao centro de um claustro que sorvia, talvez, outros silêncios diluídos em sombras nas arcadas; e perdi-me dessa quietude, que foi, tantas vezes, a minha; mas jorrou, com limos, quando a canção se recolheu, com o orvalho e o sol, no desfolhar das rosas de toucar virgens e outras inocências; e depois voou, com asas de procura, para longe da prece pejando a nuvem.

 

Não parei, por outro lado, no sentido da chuva, naquele instante prévio à descida; nem mesmo depois, quando me fiz terra molhada e, por fim, quente, repousando em raízes que foram sorver ambiências de fruto em ramos alargados, por reflexo, no fundo do céu, ou no alto do rio.

 

Também não me sequei no fogo elementar que me penetrou; mas antes, brotei, com ele, em cadência perfeita de torrente e chama; grávidos, ambos, de mundos e sonhos bebidos em goles de horizonte, que sempre se elevou, mesmo a poente, e nunca foi minguante, nem de estrelas, nem de sede de mais luas, de mais cheias, de mais… nunca demais.

 

À praia, não dei, mas não fiquei na onda, em sal que não se ergue, ou sequer enrola espuma; porque não enchi marés, mas não vazei de algas o aroma húmido de amor, na areia, nem de segredos revelados, e outros novos, engendrados no âmago das conchas, e dispersos na ressaca dos lábios; que, como meus, ninguém, senão outra metade de mim, submersa, e contudo, emergente noutros lábios, alguma vez ouviu, em voz de mar.

 

Depois, houve bruma, que era eu, gerando-me em aurora; e, de aguadas cores, abrindo círculos cada vez mais límpidos, alastrei, de mim, um infinito lago; e choros flexíveis desenharam afagos de salgueiro nas margens despertadas.

 

Descansei, então, no abrolhar de voos, florindo arrulhos mesmo quando as folhas reflectiram ocres estriados de tempo maduro, na minha pele.

 

E achei-me, toda, finalmente; quando na macieza de uma pausa trémula, um olhar de espanto absoluto, apenas concebível no fluido ar de quem começa, me verteu em eco no trago de um poldro, ou centelha de galopes fluidos, desmedidos; que logo, em descoberta retomada, me sacudiu, relincho em gota, num simples fio de erva.

 

Essência livre, e água, apenas (mesmo se me perco, aqui e além, em dias líquidos).

 

Como sempre fui.

 

 

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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