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Junto ao roble que emoldura o vento

Outubro 28, 2008

I

Esta manhã escrevi um poema a este roble; uma árvore antiga, contorcida, que emoldura o vento sabe-se lá há quantos séculos, há quantas estações, há quantas gerações de gente e de animais, de advento, de vida, de mudança, de morte, de renascimento. Não sei porque escrevi o poema; sei que estava cansada, esta manhã, mas que me sentia bem, porque repousava corpo e mente junto ao roble que emoldura o vento entre os ramos bifurcados.

 

II

Dezembro e Janeiro foram meses de criação em correria, em lufadas. Agora, Fevereiro entra pela segunda semana num passo mais brando. A criação prossegue; mas prossegue num fluxo suavizado, como uma fonte no canto mais encoberto de um encoberto jardim. Um jardim verde-escuro, cheirando a musgo e embaciado às percepções, não exactamente como um sonho, mas mais como o rescaldo de muitos sonhos, vagarosamente filtrados através de pálpebras que se entreabrem.

 

III

Há momentos em que desespero da humanidade. Momentos que sangram, como membros arrancados. Momentos que ardem na garganta, como o sabor acre de um mundo que se queima. Momentos de matar e cuspir cinzas de um tempo que não coagula, porque uma ausência de amor deixa golpes por sarar nas veias da luz. Negrume entorna-se no vazio. Então, volto-me para o roble, antes que a cegueira fira de morte uma débil esperança. O roble que emoldura o vento emoldura risos de crianças ao longe e cantos de pássaros à beira do céu.

 

IV

Respiro fundo a placidez de dois cães deitados num sol que se atenua, a serenidade de dois cavalos que pastam nos sulcos de agora. O roble emoldura um aroma de mimosas, e uma Primavera conceptual espalha poeira amarela nas minhas pinturas que serão. Os meus dedos entrançam um cesto de imagens, e estou determinada a enchê-lo com a essência delas.

 

V

Sorrio ao roble. Há amigos que gostaria de agregar aqui, junto a este vento que ele emoldura. Amigos que escrevem, espíritos que sentem, mentes que buscam. Mãos quentes que as minhas gostariam de agarrar para que, depois, todos as abríssemos, numa liberdade caleidoscópica de dar como de receber.

 

VI

Não sei porque escrevi tudo isto, junto ao roble. Sei que ele emoldura, com o vento, uma consciência de gratidão. E é bom, isto, apesar da dor que emoldura este roble no mundo, hoje.

 

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

 

2 comentários leave one →
  1. Outubro 29, 2008 11:00 am

    não há dor que faça esmorecer a gratidão. nem o desafio do renascimento.

    há um túnel entre a vida e a morte, o inverno e o verão, entre o guardar e o dar/receber.

    todos damos
    não recebemos

    o desafio está no caminho do meio.

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Outubro 30, 2008 10:47 am

    mas também recebemos ao dar; é um processo sensível e incorpóreo, mas também táctil; como num abraço.
    (hoje vou publicar aqui um (re)escrito que te vou dedicar)
    grande beijinho, com muita gratidão.
    Alexandra

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