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Anti-poema

Outubro 27, 2008

Que o poema seja o retrato vestido e infiel da forma nua, reclinada em fantasiadas horas de seda e pregas de veludo, e logo, pintada cegamente a fogo pelo frio dos olhares que jamais – verdadeiramente, e na carne – beijam.

 

Que ele ramalhe, lavrado e copioso como renda de Alençon, de todos os gemidos inventados e de pele, de alma, macia, qual pomada, e empoada; e que lhe cole, ao alto, onde o seio é estrambote do que não é nem pode ser soneto, um sinal de rebuscada glosa para um mote postiço, recortado em tafetá.

 

Que abra, em desmaios de dedos, em trémulos de lábios, paixões entre o incenso e o nardo com um fundo almiscarado, e que regresse da palidez em rosas suspiradas, esboçadas ao ouvido – ou à surdez das coxas, em tons de minuete para cravo.

 

Sim, que o poema seja tudo o que não é realmente a musa, escusa e descoberta, e que dos seus cabelos desatados no vento apenas vento, vá urdindo teias com nomes de deusas – para que da cópula com tais divinos sopros se teçam, criador e criatura, imortais.

 

Que o poema não seja o retrato nu e fiel da essência cujos véus no tempo se tornaram prosa, rasgada e atirada aos pés gretados nas asperezas do seu próprio caminho – e que não ande, ou muito menos corra, mas erre em voos e em círculos de aéreo infinito, até que de si mesmo se extenue, e, cada vez mais ténue, se dissipe.

 

Que o poema não seja então, sequer, ideia de poema – nem engenho, nem arte; e que, da veia, não mane mais que sangue, apenas vivo e escarlate.

 

Que, desfeito o verso, se faça reverso; e, dos poetas, não recite e, simplesmente, diga, em língua que outra língua, ao gosto, entenda, essa palavra: Amor.

 

Que se faça, então, sem quaisquer indumentárias – ou arrebicadas estrofes – de permeio.

 

E que esse, sim – seja o retrato, natural e a quente, daqueles que não escrevem meramente, porque, com os diabos, aqui, agora, e sempre a vivem, na prosa da carne e verdadeira:

 

Poesia!

 

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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