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Saída dos actores

Outubro 22, 2008

Foi a última sessão.

 

Penumbra e tosses de derradeiro acto em deserção apoderam-se da sala, e os ecos de passos que se apagam enquanto se arrastam ao longo das coxias vão deixando um rasto de vazio, sublinhado pelo restolho de programas amarfanhados e descartados à medida que as atenções se deslocam (como sempre acontece).

 

Restos de aplausos aderem ainda às dobras vacilantes de veludo aparatoso (tal como se lhes colam, ainda, certas viscosas pateadas) mas tudo isso é bem depressa abafado pelo que afinal se revela como nada mais que o desbotado, mofado pano definitivo, caindo, mortalmente quieto, sobre as reminiscências das chamadas ao palco e vénias finais.

 

As luzes da ribalta tinham um certo fascínio (como sempre têm) e, dentro desse nimbo cintilante, que suavizava linhas e disfarçava conotações, um vício recíproco de quadros mentais ambíguos capturava os sentidos, à medida que a consequente perda de senso ia sendo avidamente absorvida pela colectividade dos intérpretes – os que pasmavam abertamente da plateia, como os que espreitavam de camarotes obscuros, e os que actuavam no palco.

Mas foi a última sessão, e, nos bastidores, maquilhagem e suor escorrem, em riachos de alívio, ao longo de trincheiras cavadas por sorrisos que vão sustendo os borrões e as enrugadas tremuras de uma guerra finalmente acabada e de músculos faciais que se vão ajustando, tal como as almas, ao alvorecer de feições nuas e de uma inacreditável paz.

Sim, foi a última sessão, e eles estão agora cara a cara, e finalmente de olhos nos olhos, sem que deles se esperem mais decalques, “bis” após “bis”, em linhas ou personagens de outrem, do que demasiados dramaturgos – ou públicos – sempre fantasiaram, mas (conscientes do possível fiasco) nunca ousaram ser.

Foi a última sessão, e eles estão apenas a começar a explorar a infinidade de pele desvelada e dessa essência pura – onde a beleza nem sempre é imediatamente desobstruída de precedentes manchas e subsequentes falhas, e muitas vezes espera, para além do visível, para se desenrolar e alçar voo – mas contemplam, com olhos de fé, os múltiplos matizes dessa metamorfose que muda tudo mas não esconde nada – nem mesmo o natural assombro, ou até medo, de uma obra-prima por ensaiar e logo, interpretada inteiramente de improviso, por amor.

Foi, portanto, a última sessão, e pela saída dos actores um homem e uma mulher deixam para trás todos os papéis.

O crepitar de gotas de regeneração em forma de chuva e o estalar de trovões distantes compõem a ovação da noite e das sombras erectas, projectadas por um luar difuso no pavimento que os liberta – e é a única de que precisam.

Porque foi a última sessão, os actores foram desmontados e guardados com o cenário, agora obsoleto, e um homem e uma mulher (apenas um homem e uma mulher) saem do teatro para entrarem no drama, irrestrito e genuíno, dos seus sonhos, do seu amor, e das suas vidas;

De mãos dadas.

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

2 comentários leave one →
  1. Outubro 23, 2008 10:27 am

    um dos teus melhores poemas, minha amiga.

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Outubro 24, 2008 11:51 am

    Jorge,
    Tenho, de facto, uma “relação especial” com este escrito; uma relação ambígua – de autora e, ao mesmo tempo, personagem. E ainda “assisto” à “última sessão”, onde ainda, às vezes,”actuo”, enquanto sou, também, a que se vai, com ele, “pela saída dos actores”. :0)
    Beijocas,
    Alexandra

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