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Manhãs dispersas à volta de um centro

Outubro 22, 2008

Era o último guardanapo estampado com morangos, tinha sonhado com talibãs, e ele olhava-a com aquela doçura, aquela bondade, aquele amor, que lhe eram intrínsecos ao olhar porque lhe eram inerentes, a ele, desde o cerrar ao descerrar das pálpebras, e em cada cerrar e descerrar dos dias e das noites, sem interrupções pelo sono ou pelo despertar.

 

O sonho tinha sido mau, obviamente. Nem valia a pena discorrer sobre ele, porque há coisas que são apenas más, e nada acrescentam ao cerrar e ao descerrar das percepções de cada um a não ser, exactamente, o facto seco e sem cor de serem apenas e totalmente más.

 

Tinha comprado aqueles guardanapos de papel, estampados com morangos, num hipermercado. Há tanto tempo que nem tudo o que acontecera durante todo esse tempo tornava a contagem do tempo mais justificável. Comprara-os com a ideia de os utilizar em algo atípico, que não era tanto de limpar os beiços como, antes, de lamber os beiços, e que era cortá-los em redondo e fazer deles carapuças para frascos de compota. Compota de morangos, nesse tempo em que os morangos eram tantos, que só comê-los como tal não lhes dava vazão.

 

Ele viera muito depois disso, já os morangos não eram tantos, nem de perto nem de longe, mas ainda se fazia deles compota. A seguir à de pêssegos, a que ele mais gostava, e para a qual reservava sempre uma torradinha, a última. Naqueles pequenos-almoços à hora do almoço na mesa da sala de jantar. Depois do descerrar das sensações ao cerrar outra vez os braços e as pernas em volta dos ombros e das ancas, com amor ao centro e tanto que, por mais que se fizesse, não se lhe dava vazão. E do despertar das bocas ao centro preciso e húmido do beijo em volta do qual as línguas tinham lambido, lentamente, o descerrar do sono e de sonhos doces, totalmente bons.

 

Com ele, tudo era como a última torradinha que se reserva para degustar, como se fosse a última vez, aquilo de que mais se gosta, a seguir àquilo de que se gosta mais, e portanto, se degusta sempre em primeiro lugar e sempre como se fosse a primeira vez. Compota de morangos ou o último beijo, compota de pêssegos ou os seios dela, primeiro, nas mãos dele, tudo, sim, tudo, como se nunca tivesse havido um antes e como se nunca houvesse um depois. Totalmente novo, totalmente doce, totalmente bom. Totalmente atípico.

 

Atípicos, eles, totalmente. Talvez por isso se tivessem encontrado ao centro de um amor totalmente atípico quando, em volta deles, a busca típica de amor era tal, que mesmo o ficar-se tipicamente perdido de enjoo com ela e confundir-lhe as típicas voltas com típicos encontros, não lhe dava vazão.

 

Era o último guardanapo estampado com morangos, e estava ali, junto ao prato com morangos estampados, ambos, ainda, com migalhas da última torradinha aderindo ao papel e à porcelana, memórias bonitas e doces de realidades num presente doce e bom como sonhos bons e doces apesar de sonhos com talibãs e tempos maus, idos ou por vir.

 

Porque era o primeiro olhar do descerrar do dia, e era aquele olhar atípico, só dele e só para ela, intrínseco. E, porque aquela doçura, aquela bondade, e aquele amor, lhe eram inerentes, a ele, desde o cerrar ao descerrar das pálpebras, e em cada cerrar e descerrar dos dias e das noites, sem interrupções pelo sono ou pelo despertar, aquele olhar era, atípicamente, um olhar, também, para todos e para tudo. Porque era, sempre, como se fosse o último, ao cerrar da noite, e porque, com ele, era tudo, tudo, eram todos, todos, e era só ela, ela, e todo aquele amor, tanto, que por mais que se dissesse, não se lhe dava vazão, olhado, degustado, sonhado, feito, e dito… como se fosse a última vez. Essa, que se reserva para olhar, degustar, sonhar, fazer e dizer… na sequência do que se vive e ama, sempre, como se fosse a primeira vez.

 

 

 

© Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

2 comentários leave one →
  1. Outubro 23, 2008 10:57 am

    até parece que estou a ver as vossas almas

    e um doce de morangos a celebrar o amor.

    um beijinho
    jorge

  2. alexandraonelight permalink*
    Outubro 24, 2008 11:37 am

    Jorge,
    Nós amamo-nos assim… como quem come algo de que gosta muito, muito, sempre como se fosse a tal primeira ou a tal última vez.
    E tu – já to disse – és um amigo muito doce!
    Beijinhos,
    Alexandra

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