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Todos os direitos reservados

Outubro 20, 2008

A autora reserva-se hoje o direito de ser não diferente, mas confrangedoramente igual, para começar, a tantos outros auto-proclamados heróis de dramas únicos, confrangedoramente iguais a tantos outros.

 

Reserva-se o direito de estar infeliz e de limpar as lágrimas e o ranho aos ombros que não os amparam porque sofrem do mesmo ranhoso desamparo.

 

Reserva-se o direito de exigir que esses ombros se desnudem publicamente para que a autora neles marque a ferro em brasa e baba o seu nome, e outros queimem a língua na infelicidade que escorre e que a autora reserva o direito de os obrigar a lamberem sem uma pausa para pseudónimos.

 

A autora reserva-se o direito de rir, rir às gargalhadas, às mãos cheias arrepanhando histéricas os dois cantos da boca e os quatro cantos do refúgio que mais nenhum arrependimento encontra no seu silêncio.

 

Porque se reserva o direito de anunciar o que sente com estrondo, como se libertasse, com fedor e tudo, uma dispepsia há muito retida à revelia, e fermentada sem direito a julgamento nem antiácido.

 

A autora reserva-se o direito de ser incorrecta, política e intimamente, de se aliviar no tormento daqueles que recolheram louros por a atormentarem grafando as penas deles com as suas, e de os temperar com os tais louros, depois de devidamente depenados, para os cuspir como prato intragável, que se reserva o direito de os condenar a comerem a todas as refeições e em todas as fomes, como em todas as náuseas.

 

A autora reserva-se o direito de reivindicar todos os seus direitos como quem só colhe mas nunca plantou, e por isso não faz senão o que fazem os outros que exercem a torto e a direito o seu torto direito a tempo de antena, e logo, de, em horário tudo menos nobre, arvorar florestas de bandeiras e estender desertos de slogans estafados nesse mesmo tempo, com a ânsia estridente de uma campanha publicitária destinada a arrancar, de novíssimos detergentes heterónimos de velhíssimos sabões, orgasmos mais brancos que os da vizinha.

 

A autora reserva-se hoje o direito de reservar uma total falta de reserva no direito de dramatizar profissionalmente na primeira fila, ou mesmo numa frisa de boca escancarada como a máscara alvar da comédia mais real de todos os sonhos pirosos e plebeus, as autobiografias nuas, frustradas, adiposas e flácidas de todos os trágicos autores amadores e suas trágicas musas.

 

E reserva-se hoje o direito de vaiar cada tomate que não distingue entre as pernas que se esfalfam em afiançar a qualidade da peça, mas que, em retorno murcho de tudo menos de sentido crítico, atira, com uma pontaria que, amanhã, por direito próprio, há-de esborrachar-se em todos os jornais.

 

Aos quais a autora se reserva desde já o direito de limpar o cu, num gesto de inspiração sem reserva (que lhe há-de valer um prémio literário no exílio e uma sentença ultrajada à lapidação da bruta na bruta da sua terra) para que todos leiam a merda inaudita que se reserva o direito de escrever quando é não diferente, mas, para terminar, igual a tantos outros auto-proclamados donos absolutos dos direitos de autor de dramas únicos, finalmente iguais a tantos outros e entre si, mais vírgula menos vírgula, mais reticência menos reticência, mais gralha menos gralha.

 

Publique-se. Com todos os direitos reservados. Em edição da autora.

 

(I.V.A. incluído, à taxa arreganhada por prestação de um grande serviço a uma data de sujeitos passivos)

 

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

 

 

3 comentários leave one →
  1. alexandraonelight permalink*
    Outubro 24, 2008 12:06 pm

    A pedido da minha grande amiga Guida Énio, ainda uma principiante em matérias “internéticas” – mas em entusiástica aprendizagem – transcrevo o comentário dela, enviado por SMS, a este texto:

    “F***-**, mulher… senti a fúria brotar em cascata, e em simultâneo a razão (dela, tua) ser e o direito de o gritar. Gostava de saber dizê-lo assim. Fiquei tonta mas gostei a sério! Beijos, Guida”

    *************************

    E eu respondo, caramba, mulher, obrigada por uma apreciação de tal veemência e sinceridade! :0) Foi um “desafogo” – e, ao mesmo tempo, um “desmando” – que precisei e me soube bem escrever! Mas, anda lá… aprende-me a escrever coisas “online” depressinha; tu escreves maravilhosamente!
    Beijões,
    Alexandra

  2. Novembro 9, 2008 12:07 pm

    Como diz uma nossa amiga comum (Mónica Correia) “Nem mais!”. hihihi

  3. alexandraonelight permalink*
    Novembro 9, 2008 12:10 pm

    E eu acrescento, hó hó! :0)

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