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Passagem com gato lúcido

Outubro 20, 2008

Passava sempre à mesma hora. Essa hora entre o leite, o pão e o cheiro dos cigarros que não se fumam até ao fim da ausência do sono e se torcem em rimas amareladas, oleosas da demissão de qualquer consciência, nas sombras côncavas e moles entornadas de cinzeiros para as paredes.

 

Passava entornado e quase côncavo, também, como se fosse uma dessas sombras que podem ser de qualquer coisa, de qualquer ausência e de qualquer silêncio, a essa hora. Havia um gato, um gato lúcido, desenhado a malhas e a obscuridades lúcidas, num parapeito vários pisos acima de todos os matizes vagos e moles, e dava à cauda como só os gatos dão à cauda, quando o via passar – porque não era ele que passava abaixo da lucidez do gato, impreciso apenas porque, àquela hora, ninguém o via, dando à cauda em toda a consciência do leite e do pão prestes a chegarem. Era isso, precisamente, o que passava, para o gato – não ele, mas a hora que seria depois da hora que já não era.

 

Não há companhia mais solitária do que a de um gato que não se sabe, mas solitariamente enche, de companhia lúcida, os matizes vagos das horas imprecisas, prestes a passarem a outras horas.

 

Para onde ele passava, nem a concavidade do eco que ia entornando, entre manchas e obscuridades e sombras que não se ouvem dos sonos ausentes e torcidos até meio de consciências que se demitem, oleosas e amareladas, dava qualquer pista. Só a cauda do gato, como um metrónomo, acompanhando, na solidão da passagem dele, a passagem da hora, prestes a entornar no tempo a prevista hora do pão e do leite.

 

Um dia, ou talvez não fosse ainda dia, embora já não fosse noite, nessa imprecisão lúcida de manchas amareladas e obscuridades moles pelas paredes e pelos ecos que não se ouvem, porque são de ausências, de silêncios, e horas entre o que foi e o que será, ele não passou.

 

E, pasme-se, ou talvez não – foi precisamente quando ele, por uma vez, não passou à mesma hora de sempre, que finalmente se tornou clara, clara como o romper da hora do leite e do pão através do cheiro da hora com sombras de cigarros e muitas sombras mais, a pista para o outro extremo daquela passagem, que ninguém sabia de onde partia, porque, àquela hora, nada era ainda o que, no entanto, já não era.

 

Ele jazia, mole e entornado, no cheiro das sombras torcidas de uma solidão jamais fumada e, mesmo, jamais bebida até ao fim da ausência do sono. Oleosa, alastrada em torno dele, em matizes imprecisos de demissão de toda a consciência, a hora seguinte, cada vez mais lúcida no eco crescente das passagens, vários pisos abaixo, para lugares vários, para outras horas, depois do pão, depois do leite, depois dos silêncios côncavos e das presenças que o foram apenas em rimas pelos cinzeiros, por copos vazios, e pelas silhuetas que nunca se reflectiram, convexas, afinal, nas paredes.

 

O gato, esse, deixara o parapeito pelo leite e pelo pão, ambos em sopinhas, na tigela amarelada projectando a mancha lúcida de outra hora para dentro da janela de onde se via a rua.

 

A rua, entre o segredo de outra solidão velada por cortinas de sono aparente, e a companhia de um sinal, como um metrónomo, em manchas e obscuridades, daquela passagem.

 

A única, esperada em demissão da vontade de desenhar na imprecisão côncava um grito lúcido e convexo:

 

– SOBE!

 

A que ela via, e nem ele nem ninguém, a não ser o gato, sabia, sempre à mesma hora.

 

 

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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