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Facetas

Outubro 20, 2008

Quero embalar-nos no início destes quadros. Penso num quarto, num quarto que pintaria a aguarela, com mais água do que cor, mas com todas as cores imateriais do branco, e penso que seria um quarto a tecer de fios de linho e seda, se dele quisesse fazer, em vez de papel, uma tela, ou um lenço, ou uma cortina. Uma cortina como esta, não nas janelas do quarto, mas em torno de mim, e de ti, que aqui te trago e acaricio, no meu regaço branco, nesta aguarela com um inesperado perfume de maternal serenidade, de lábios que colhem beijos de leite e mel em seios de dar com pureza, nestes fios de linho e seda que deixam gotejar meigos azuis como os teus olhos, logo diluídos em maciezas muito levemente rosadas de pele que devagar, muito devagar, desperta.

E depois quero despertar-nos depressa, como quem irrompe, para lá desse quarto e para dentro de um outro quadro. Despertar-nos com rasgada avidez, sim, em pinceladas que misturem e desfraldem searas num Verão muito quente, cheio de ocres de trigo maduro e todo ele brotando papoilas que nenhuma chuva de pétalas de rosa, por mais rubras, poderia alagar de maior paixão. Sangue e terra, e muito, muito sol, e todo um ar de pássaros em trinados que não se capturam, nem se querem capturar. Pássaros e trinados num espaço que uma espátula sulcaria, para logo lhos instilar nos sulcos, de verdes opulentos sob os quais e sobre os quais, em alternadas noções de árvore e de erva, nos semearíamos em nudez e seríamos safra de todos os desejos. Então, entrançaríamos vergas de tarde e orgasmo com aquele cromatismo ímpar da luz que irradia o dia que se encurva, e desse cesto iria amadurecendo a inefável doçura de termos saciado a nossa fome, baga a baga, mas de termos ficado sedentos, deliciosamente sedentos, de mais sumo aderindo aos dedos.

Mas ainda não é tudo. Para lá destes quadros há ainda uma infinidade de galeria, e quero embrulhar-nos nessa vastidão que é como de retalhos unidos na coerência de uma manta agasalhando um todo prenhe. Sépias, índigos profundos, roçagantes fulgores de mar ao longe e brisa perto, ora salgada, ora salpicada de todos os sabores subliminares desse orvalho que pousa sobre as crinas dos garanhões e os dorsos das éguas velando o repouso dos poldros. Esse orvalho que é também o âmago da espuma no tal areal distante, e é reflexo de lua cheia no canto dos golfinhos como no uivo da alcateia, sempre ressumando, afinal, a essência líquida da luz na substância da mais insondável escuridão. Poderemos aí figurar a negro muitos medos, como se fossem sombras, e poderemos conceber toda a paleta dos obstáculos invisíveis mas aguçados como tojo, e das dúvidas que também nos penetram sem que nós lhes penetremos, verdadeiramente, todos os matizes para além do carmesim tangível brotando das feridas. Mas poderemos, também, envolver os paradoxos da noite, mais como quem os acolhe do que como quem os abafa, em toda a tinta de um senso de estarmos juntos sem limites, na profusão como na ausência de todas as cores.

E quero ainda folhear-nos em caderno de esboços, sabes, pincelando sorrisos francos em rostos que não se desenvencilham daqueles cinzas que um tédio qualquer traçou, e que nem aqueles palhaços garatujados por cima, em cabriolas berrantes de lápis de cera, conseguiram esconder. Quero seguir contigo os contornos descompassados de uma trupe de corações recitando-se inteiramente de improviso, através de páginas e mais páginas, e quero, contigo, aplaudir-lhes a originalidade, que todos os “encores” não esborratam, nem todas as pequenas setas, disparadas de uma plateia de nuvenzinhas redondas por redondos cupidos, esgotam. Quero-nos nas volutas de espirais sem acaso traçadas ao centro de todos os acasos, e nas cornucópias transbordando, generosas, um conceito em expansão das espirais. Quero-nos, até, na ponderada linha que deixou de ser rigidamente recta para crescer transformada em flexível curva, mais adiante formando um arco por onde se passa ao entrar e ao sair, e terminando ao princípio reencontrado de si mesma, num perfeito anel.

Quero retratar-nos através de todas as facetas, nossas, que toda a Arte jamais retrata, porque são auto-retratos sempre incompletos de um completo Amor; Tão complexo como todas as suas mutações, que são as nossas, também. Tão simples como o nirvana atingido de mais uma tela em branco de absoluta plenitude.

Esta, que quero oferecer-nos agora, só para que a busquemos de novo, incansavelmente, os dois como um, levados apenas por querermos criar sonhos de mãos dadas, e nunca lhes pintarmos o fim.

 

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

 

 

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