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Conto do tempo

Outubro 20, 2008
 
 

Naquele dia, acordara com o tempo a doer-lhe. Uma chuva fina, gelada, de passos corridos, entrava por um rasgão aberto na memória, batendo-lhe nas têmporas, e os dedos, tacteando palavras, devolviam-lhe à luz um silêncio viscoso, febril, latejado em sombras. Todo um tropel de momentos, em pontadas de vitrais quebrados, juncava de cores o espaço, e o ar ardia de vozes, relâmpagos, de faces em arrepio, dissecando a sangue em tudo delirantemente oposto ao frio, a respiração. Esperou de frente a cura do embate, como quem pára um fragor de manada e agarra o alfa pelos cornos, pegando-lhe o movimento em cheio e em cheia, no peito nu. E enovelou o tempo, insanável, no fundo do corpo que lhe fechou em torno, como abraço de morrer na dança e nascer no canto. Abriu, porém, a alma nas asas das pálpebras, e o voo foi a bátega que se enquadrou no dia, já com laivos de sol, quando o cerne da dor, lentamente embalado numa estrofe instilada com amor, gota a gota, lhe adormeceu no corpo as lágrimas, e lhe abriu os lábios ao regresso de um sonho, inteiro, restituído à sua natureza quente, sã, e liberta – e, do conto do tempo, foi este o primeiro verso que se soltou. O resto é já poema.

– © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

 

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