O movimento do(s) espaço(s)

* AGORA:
Faz-se, mais do que o faço, ao seu próprio ritmo, o meu "estar" neste Caderno. Um "estar" em movimento. Ou o movimento, não premeditado, natural, de "estar". Bom, seja o que... é, agora!

* OUTRAS COISAS EM QUIETO MOVIMENTO:
Entretanto, há, num outro espaço, traços de uma outra faceta. Alguns desses traços andam por aqui, à solta entre as palavras; outros... podem continuar a descobri-los, também soltos, em ArtFacets®.

Com beijos que respiram,

Alexandra

Vivas quietudes (im)possíveis

2010 Janeiro 31
por Alexandra Oliveira

Semear o olhar e colher prados. Cheirar o sol, acabado de estender, e entender, enfim, o dia bem lavado. Das árvores, já seco, recolher o vento, e, no tempo, guardá-lo, bem dobrado; retirá-lo, desfraldado, no momento, certo, de fazer o ar de fresco. Deter, a um passo da chegada, uma vereda corredia, e enterrar, com volúpia, os pés no passo. Brotar, com a nascente resultante, dos pés à ponta dos cabelos. Fluir, então, sem pressa nem vagar – ser decurso e curso, simplesmente. Voar, entretanto, mãos e sonhos, provar uma fome bem madura noutra boca. Saciar, de um só silêncio bem ouvido, todas as sedes de harmonia. Manter, por fim, escancarado o início, para que entre, a jorros, o infinito que é agora. Não seja eu que dance a vida – mas ela a mim, que sou a dança.

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

(Imagem de Freydoon Rassouli)

Outras “Solta(s) e de natureza táctil”

Sorteio do livro Galego – Português

2009 Outubro 15
por Alexandra Oliveira

9789722036825
Caros confrades, amigos, vizinhos de aquém e além Minho, e amantes das belas letras em geral:

Lembram-se do divertido Sorteio do Traste Galego que, há já vários meses atrás, manteve os nossos blogues em tão grande e animada actividade, e que redundou, depois, em trocas de deliciosos produtos e iguarias regionais por toda a Península Ibérica e várias ilhas Atlânticas, além de – o melhor de tudo – em muitas novas e belas amizades? Pois o meu estimado amigo e vizinho Manuel Rodrigues acaba de me envolver num novo sorteio… desta vez, literário!

E se eu não consegui resistir, em tempos, às iguarias Galegas, Portuguesas, e outras próximas, muito menos consigo resistir, em qualquer tempo, a… delícias literárias, pelo que aqui vos deixo a explicação do corrente sorteio, nas palavras do próprio Manuel:

“Cada blog escolle un libro do mundo litetario galego (entendendo por galego aquel que emprega a Lingua Galega) ou português (que en certo modo non deixa de ser unha variante do mesmo idioma). Posteriormente pasaselle o relevo aos 5 blogues que cadaquén considere para que sigan co xogo. O día 30 de Novembro deste presente 2009 todos os mantedores sortean o libro entre os comentarios da entrada. Sería interesante que cada blog escollese un autor da súa zona…”

… e assim fazendo, declaro que a obra a que se candidata quem deixar comentários no blogue desta vossa amiga, é, nem mais nem menos, do que “Amor de Perdição”, um clássico da literatura Portuguesa, da autoria do meu ilustríssimo vizinho (praticamente paredes meias) Camilo Castello Branco!

Isto registado, passo, como é devido, o testemunho, aos meus muito estimados e admirados:

* Jorge Vicente

* Chousa da Alcandra (em homenagem ao sorteio anterior, que em boa hora fez com que os nossos caminhos se cruzassem)

* Amadeu Ferreira (em homenagem à lhengua Mirandesa, que será muito interessante e muito nos honrará associar a este sorteio literário)

* Geraldes de Carvalho

* Carlos Savasini (para trazer também ao sorteio o sabor do Português do Brasil)

… e a todos desejo, desde já, e sempre, óptimas leituras! :0)

P.S. Atenção, amigos que amam a leitura e que não têm blogues… também podem e devem participar no sorteio! Basta virem aqui, e deixarem a vossa mensagem de “eu também quero” na minha caixinha de comentários! :0)

Um “Alexandrismo” para o Jorge

2009 Setembro 26
por Alexandra Oliveira

Ser, criar, ou a jornada: uma paleta mutável, viva, intemporal; sem que os pincéis (ou os passos) receiem o que quer que seja, mesmo as telas brancas… ou os horizontes turvos.

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®)

Facetas em rota de colisão

2009 Setembro 26
por Alexandra Oliveira

Deste lado, há muito que não se escreve. Muito, em momento que não, não assoma, porque não provém do muito, em soma, que o querer não quer. Deste lado, querer não é poder, mas é força, é nervo. É nervo reservado, oculto entre tendões nem sempre retesados, mas enrijados por tensões que o adestramento flexibiliza, antes que quebrem. Deste lado, há a margem em branco do outro lado. Conscientemente proscrita para que, conscientemente, nenhum lado a alcance e nela conceba. Deste lado, não se cria. Assume-se o que se amamenta do que, a outros lados, peja. Deste lado seca-se o que, a outros lados, alimenta. Cevam-se fomes de fomes que, deste lado, não há, porque foram morrer de fartura viva noutros lados. Deste lado não se sofre, nem atura, nem suporta, o que, deste lado, se consente e se disfarça em outra face, porque, como tudo, de lado para lado, face a face, passa. Logo, deste lado, o que é logo já não é, e agora é, já, o que não foi. Deste lado, contradiz-se o indizível. E a antinomia é, do outro lado, a impassível, enganosa face que se diz. Deste lado não há lado que obste à obstinação em não ser, nem neste nem noutro lado. E assim, a rota é cega, porque, lado a lado, corre a acuidade de lados que se sabem, afinal, percorrendo o espaço ínfimo que falta para que se encontrem. E se abalroem, face a face. Com os destroços precisos para que, a este lado, arribe, sentida, consentida, a voz primordial de todas as facetas. Inteira, numa palavra.

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®)

Panta rhéi II

2009 Setembro 26
por Alexandra Oliveira

Não corro; para quê, se já me corre o tempo em rio, para onde, se AQUI é, e será sempre, o limiar e o fim do rumo, com que móbil, se não é, de si, de mim, inerte o fundamento? Não, não corro; mas sou, por isso vou, ou fluo… ainda que fique.

- © Alexandra Oliveira (Onelight*®)

“Panta rhéi” (tudo flui) – aforismo da autoria de Simplício de Cilícia, mas habitualmente atribuído a Heráclito de Éfeso, por analogia com esta enigmática súmula da sua filosofia: “Nunca se entra no mesmo rio duas vezes”.

Fugas

2009 Setembro 5
por Alexandra Oliveira

(Para o meu vizinho Chousa de Alcandra)

I

Vergam, as nogueiras. Como se a abundância se fizesse lascívia, e a lascívia deleite. Como se o deleite fosse quase, quase, insustentável, e não pudesse, senão, render-se a si mesmo. E se derramasse, então, num orgasmo, profuso, verde, e de cerne carnudo. Entre muitos sussurros que o silêncio do gozo, do contentamento perfeito, vai, pouco a pouco, possuindo e consumando.

Diz-se, por aqui, que, em tais anos, de muito, muito mais nozes que vozes, há, por contraste, muito menos vinho. Sim, desse que molha e ateia, de um gole, a palavra. Que, de repente, ou de outro gole, leveda, ferve, e se faz prolífica. Tanto, que a si mesma se extravasa. E se vai, então, parindo em cantos, que logo se decantam, na celebração de si mesmos, em danças. Olho as danças já pegadas ao ouro do verbo ainda contido na polpa que, virginalmente, ainda desconhece, de si, o sumo que há-de multiplicá-la, menos verbo e mais cantos, nas bocas. Vozes. E sorrio, ao pensar na sabedoria do contraste.

II

Não há ausências. Há, simplesmente, presenças. De tudo… e dos seus opostos. Como, por exemplo, esta presença do indizível. Que respira, pulsa nos lábios, e escorre, como mel de rosmaninho cujo perfume não se sente e apenas se sabe, feito por abelhas que não se vêem mas são, para o cerne da consciência de, agora, ser doce. Por muito que não haja, ou não se ouçam, palavras.

III

E a fuga torna-se antónimo. Inteligível nos dedos.

*

- © 2009 Alexandra Oliveira (OneLight*®)

Escrita (sempre) nómada

2009 Agosto 19
por Alexandra Oliveira

(Ou “movimentos para visões não estáticas” – Dedicado ao amigo e poeta Argentino Carlos Roldán, por me ter recordado que “o nómada conta ou diz ou canta”)

Mais uma vez, ou talvez sempre, nómada – esta casta de uvas e ondas, de fulgores e vento, entre o sonho e as amplitudes de poemas a perder de vista, e, às vezes, alados; ou então deitados, e escorrendo ambiguidades ao longo de leitos de cristal entre o rio e a seda; ou os seios nus da tua mão, que vai vestindo desejos algures, em horizontes de brumas recortadas em azul de olhos, e silêncios com o gosto da minha pele. Não chego a partir, e não parto de onde não cheguei, mas vagueio, de flancos já em galope e os lábios em flor de mel ainda por fazer; deixando espuma e volutas de mar em dorsos de golfinho, e linhas curvas de costa e dos tais poemas, para lá de dunas e aquém de jardins onde, mais logo, me hás-de colher. Madura, e ainda, ou talvez sempre, nómada; com poemas de ti e dessa casta, entre sonho e fulgor, vagueando no vento e na tua partida para a minha chegada, molhada, quente, e com cheiro a erva, onde o galope se deita com o sol. Quando a seda e as uvas, aladas, salgadas, nos escorrerem em amplitudes, não só, mas sempre, da voz. Sim… e depois, talvez inescrutáveis, seguiremos, desatados como o sonho e quiméricos como o tempo. Importando-nos menos que ao vento, ou às uvas que amadurecem, se estes movimentos vagueiam para além de visões estáticas…

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®)

Geração

2009 Agosto 12
por Alexandra Oliveira

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Não, não durmo. Percebo-me e percebo. Quietamente viva. Como um lago que considerasse o reverso da folha que flutua. Como se o fizesse com os lábios. E, quietamente, animasse todo o verso. E, concebendo-me, concebesse, fluida, toda a árvore.

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(Imagem de “Imagery by Aimea”)

Assim advimos

2009 Julho 2
por Alexandra Oliveira

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(ao meu amor)

Assim advimos. De um só rasgo, de uma só pele, de uma só refulgência. Com um soluço, como se nos parisse um êxtase da lua. Ouves-nos, eu sei, pelo toque. Este eco invertido, vertido de tudo o que a quietude destapa, quando advém, depois, de nós…

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

Imagem de “Imagery by Aimea”

Outras “Solta(s) e de Natureza Táctil”

XII – As coisas que são quando não estás a olhar

2009 Junho 10
por Alexandra Oliveira

Talvez estejas a cansar o olhar à procura dessa felicidade que permanentemente se te escapa. Talvez estejas a fazer dos teus braços pilares de templos que se desmoronam perante essas súplicas que alteias cada vez mais. Talvez estejas sempre onde não estás, contando o tempo que falta para o tempo que ainda não é, poupando o hoje para amanhã, e morrendo de fome na abundância presente, enquanto alimentas pensamentos de escassez futura. Talvez a Páscoa seja um ovo que ainda há-de chocar mais um Natal por alturas do Outono, e a roupa-velha seja para se comer fria no Ano Novo, com restos do próximo Verão, fritos enquanto verdes. Talvez o amor se faça segundo essa receita que, segundo todos, nunca falha, e que sabe, sem falhar, à desilusão que todos, aliás, afiançam. Talvez… talvez não estejas a olhar para todas as coisas que são enquanto olhas para demasiado longe com demasiada atenção por tempo demais. E contudo, há momentos agudos de felicidade em dias de infelicidade crónica; e gestos de gentileza, minúsculos e aeriformes, que ascendem de um chão pejado do fedor de despeitos em decomposição. Sim, há fôlegos que naturalmente se elevam, e mãos que naturalmente se abrem, e olhos que naturalmente caem, como reflexos, sobre âmagos que naturalmente querem desdobrar-se e voar. Porque há asas que preferem adejar com a brevidade da memória que a luz retém das mariposas, do que permanecerem eternas borboletas imperiais possíveis, no casulo. E há tufos de trevo de três e de quatro folhas que se limitam, com simplicidade, a ser igualmente verdes, ao longo do caminho, para os pés nus de tudo menos da vontade de sentirem como é bom tocá-los. E há pés que, ao longo desse caminho, vão aprendendo, com as estações, que as folhas não restolhariam, deliciosamente, se as impressões, que vêm cedo e em verde, se não expressassem, mais tarde, em ocre. E há sonhos a serem sonhados, e há vidas a serem vividas, e poemas a serem escritos, e poetas a amarem, e amor a ser feito como um sonho que a vida escreve em prosa poética acerca da felicidade – essa coisa que está em todas as coisas que são quando não estás a olhar.

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Outros “Exercícios (In)divisíveis por mim própria”

Afinal o ponto

2009 Junho 8
por Alexandra Oliveira

Afinal o ponto

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Outras “De outras p(artes) e partos”

Passagem de agora

2009 Junho 6
por Alexandra Oliveira

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Nem é um limbo. É uma pedra, e às vezes uma flor. Uma flor com algo de pedra, rompendo de alturas como terra com algo de nuvem. Passo-lhe os olhos, quando ela me passa na queda. Nem somos uma, nem ela é a dualidade em que me torno, quando me faço voz que se perde ao encontrar o momento. Por isso não nos vêem, mesmo quando passam por onde nos esculpiram horas de chuva, e não nos ouvem, mesmo quando cantamos nos beirais onde os pássaros nos depõem como passagens suas. Nuas. Albergam-se-nos letras no sentido em branco do que talvez tenham sido pétalas atiradas como quem semeava caminhos de silêncio, rangendo sob estrofes como pés com rumos íntimos. E advimos como uma espécie de promessa nunca feita, mas cumprida com a simplicidade do que é fortuito. Curvam-se assombros, fugazes como alheamentos invertidos, à nossa superfície. Reconhecemo-nos, então, nesse reflexo que não o é, e que interpreta, em síntese, o que, de nós, não é senão a cristalização do que já fomos. Ou não. E reintegra-se-nos o ser na orla do nada, ou do tudo em suspensão. Nem é um limbo. É uma flor, e às vezes uma pedra. E, às vezes, eu, queda, e, no entanto, sulcando a luz, à velocidade da sombra.

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Outras “Solta(s) e de Natureza Táctil”

De horas encontradas em trilogia desencontrada

2009 Maio 15
por Alexandra Oliveira

(Para o Joseph)

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I – Caminhos na tarde

cherries
Abres, na tarde, um caminho de cerejas. Podem ser poemas, ou talvez apenas sonoridades quentes, viajando de um quadrante amadurecido há vários Maios, a nordeste de cores bravas semeadas no vento. Pode ser que apenas me apeteça pousar o que penso no teu ombro, e nesse reduto ir, então, longamente desatando, de ramagens densas de acepções, as vozes essenciais e doces que colho, uma a uma, no caminho sentido. Esse caminho aberto entre os teus lábios e os meus, onde a tarde bem pode volver-se em todas as cerejas provadas…

Pode ser agora, amor?

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II – Nocturnos deuses

TwinFlames
Instalo-me, intrinsecamente, no cair da noite. Despida, ela, de luas e de brisa, veste-me a mim, que estou nua, desse azul profundo e quieto, de certo modo frio, por remoto, mas apenas de passagem – pois logo desliza, com a calidez de um veludo sublime, lavrado em espirais que evocam chegadas de longe e plenos suspiros. Não vejo senão com um levíssimo roçagar de dedos sobre os lábios entreabertos, que deixam entrar o que as pálpebras pensadamente velam, e não é mais do que a textura voluptuosa do ar, pontilhado de minúsculos lampejos, talvez de fogueiras que adormecem algures, ou de astros que acordam ao alcance dos poros. Sinto-me deusa, na alcova da deusa, e ela, a noite, deixa-se penetrar da minha mesma espera. Lânguida e sem pressa, ela como eu, nesta obscuridade natural de fêmea, vestida apenas de estar pronta para acolher, nu de humanos veludos, ainda que sublimes, e chegado de longe, com suspiros plenos, um natural, nocturno deus.

(Amor… és tu?)

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III – De volta (acesa madrugada)

riomouro
Volto ao regato, nesta consciência de margens talvez mutáveis, mas plenas em refracções de tempo e cristais elementares. Sempre acendeste de madrugadas as sombras e a dança destas árvores, que tantas vezes procurei tocar em espirais nocturnas de lumes vagos, com os olhos em voo para lá da nascente e dedos em crença penetrando estrelas no adejar das folhas. Volto, pois, ao regato e à plenitude de ti, correndo-me na pele, mas com a profundidade concebível, apenas, para a alma do sangue nas veias do tempo. Sim, do tempo e desta consciência fluida e cristalina, entre margens elementares e refracções talvez mutáveis mas infinitas, da luz de muitos outros equinócios a nascente de almas e ao cair das sombras. Sempre te encontrei ao voltar aqui, onde brotamos alma, e depois sangue de uma só água, e de um só fogo acendendo madrugadas para além da pele, com os dedos em luz espantando sombras caídas do tempo – esse outro tempo que já secou.

Voltamos, meu Amor.

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(Fotografias © Joseph Sherman (OneLight*®) – Todos os direitos reservados)

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Outras “Janelas para (algures) dentro”

Uma resenha macia do que tenho feito no tempo que não passou…

2009 Maio 13
por Alexandra Oliveira

(Para os meus amigos Jorge Vicente e Chousa de Alcandra)

lilianmaus

Não passa, o tempo. Paira, com cheiro de frutos invisíveis, como se amadurecesse ao longe. Desacompanho uivos, e passo relinchos como folhas lentas, na noite. Mingua-se-me nos ombros a lua, e toca-lhe a face oculta a minha face. Cúmplices. É bonito pensar nisso sem pensar e depois adormecer. Adormecer, sim, na hora sem horas do acordar dos pássaros e das colmeias. Uma hora sem cor, ou com todas as cores, tal como devem ter soado no primeiro dia da criação. Acorda-me o sonho de que esse dia é todos os dias, sim, tão real como um sol nascente. Escrevo latidos, e acompanho galopes, então, em páginas rápidas. E respondem-me todas as eloquências de silêncios meigos, olhos profundos, trinados e zumbidos alheios aos matizes, cada vez mais acesos, dos meus traços, forças subtis como plenitudes que, de repente, se encontram e por isso aquietam. Um resenha macia, agora também para vós, e já não só por dentro do segredo dessa memória que se fez minha e de todas as minhas faces e das éguas e das cadelas, como uma só. Como uma só, sob um tempo que não passa. Erguemo-nos, todas, até que o tocamos. E fundimo-nos no cheiro de manhã já madura e carnuda, e no entanto sempre verde e em botão, mesmo quando aberta. Cheiro que, esse sim, passa no tempo que paira. Reconhecemo-nos terra, bebemo-nos água, morremo-nos vida. É isto, o que tenho, o que temos feito. Apenas tudo isto. E ninhos e mel em intento. Como as cotovias e as abelhas que se juntam a mim, a todas nós. Como uma só. Sim, respirando o ar que paira em torno de tudo o que temos, o que tenho por fazer, como quem, afinal, inspira um prólogo para se expirar sem epílogo no tempo. O tempo, que não passou e se alargará na fase crescente e visível de todas as minhas faces, quando anoitecermos, sem forma, perto, e cúmplices, como uma. Uma e outra vez.

- © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados
(Arte de Lilian Maus)

Outras “Do Tempo (In)concebível e outras sazões”

Escrito sem acaso

2009 Abril 22
por Alexandra Oliveira

air Às vezes, limito-me a colher paragens no tempo de semeados poemas ao acaso nem sei de quê. Não de mim, mesmo quando não consigo ver, no tronco que cresceu muito para além do entalhe, essa criptografia de causa e consequência que, nada tendo a ver com o senso, é todo o senso de acasos nenhuns rompendo a terra e tacteando o hiato, entre verde e maduro, que só por inércia e nossa ausência – ou excesso – de chuva, deixamos apodrecer no ar. Paragens… mas porque corre, então, a paisagem, enquanto eu fico onde se me vão os olhos, num ocidente de cobiça já cheio de estrelas a oriente de uma submissão que, se bem a conheço, cai de cansaço muito antes de cair… cair, não… chegar ao mar? Chegar ao mar… mas a subir o rio, e sem dar uma única braçada que me leve à nascente e a mais uma colheita de tempo parado em poemas, no topo do voo de não sei que ave, com todas as folhas e todas as cores de Outonos passados por Primaveras no bico… e pousada ao acaso. Não de mim. Do Inverno que já saiu do mar do Verão, onde, sem submissão à vista, mas cansada de ter semeado tanta cobiça de um tempo de poemas corredios, mesmo assim, não me deixo cair. Fico assim, como estou. Suspensa nas linhas do que, às vezes, me limito a colher… porque, quando o entalhei na árvore, era… não o acaso, não… mas a consequência da causa: Esta fome… ou será sede… de escrever.

- Copyright imagem “Air” (giclée) & texto © Alexandra Oliveira (OneLight*®) – Todos os direitos reservados

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Outras “(Geo)grafias Inerentes”